Moeda: Clima: Marés:
Início Colunas
Professor Trindade

Para quem, como eu, trabalha, diuturnamente, com literatura, a pergunta, feita por muitos, sobretudo jovens, é quase inevitável. Difícil é respondê-la.

E por que é difícil? Porque simplesmente não há definição exata para poesia. Claro, estou tratando do vocábulo no sentido técnico, não em termos genéricos, filosóficos ou existenciais. Nesse sentido, até se enternecer com o pôr do sol no Jacaré seria poesia: aquela velha e surrada história de que “poesia é estado de espírito”, que serve também para alguns se autoenganarem em relação à velhice, com igualmente surrada frase: “juventude é um estado de espírito”.

Como disse, vou tratar do tema levando em conta a teoria literária.

Segundo Ezra Pound, “Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível (grifo nosso). A segunda definição se encaixa, perfeitamente, no que considero poesia, acrescentando-se outros elementos que virão a seguir.

Uma coisa é certa: poesia só não é sinônimo de rima; tampouco de verso. Ou, como bem asseverou o grande poeta Sérgio Bitencourt: “Ninguém é poeta por saber rimar”.

Infelizmente, predomina, no nosso país, sobretudo entre os leigos, mas também entre alguns “intelectuais” uma ideia de que escrever um bocado de bobagens, desde que rimadas, é poesia. Pelo lado oposto, e pegando carona na onda do postulado modernista, outros colocam uma porção de frases, uma abaixo da outra, e chamam poesia.

Mas o que é poesia, mesmo?

Diga-se, de passagem, que poesia é, sobretudo, conteúdo. Na classificação puramente literária, todo texto tem forma e fundo (conteúdo). Quanto à forma, o texto pode ser apresentado em prosa ou em verso. Quanto ao conteúdo, pode, ou não, ter poesia. Isso nos leva à seguinte conclusão: pode haver poesia no verso ou na prosa, sendo que ela é mais frequente no verso.

Mas o que é poesia, mesmo?

Após havermos visto a diferença entre forma e conteúdo, ainda persiste a pergunta.

No meu entendimento, um texto poético é aquele que é carregado de imagens, ritmo (elementos essenciais!) e palavras exatas, certeiras, de forma concisa. Em geral (mas não obrigatoriamente), no texto em verso, com ou sem rima, sendo que, ainda no meu entendimento, para conseguir fazer um bom poema totalmente sem rima é preciso o sujeito ser um poeta muito acima da média.

Não poderia, é claro, encerrar meu artigo sem exemplificar.

Quer aprender a fazer poesia? Comece lendo os poemas a seguir; e, se possível, tente fazer uma paráfrase (não falei cópia!). Aliás, uma das melhores maneiras de se aprender a escrever é fazendo paráfrase. Na minha adolescência, fiz duas paráfrases razoáveis de Gonçalves Dias e Vinícius de Moraes. Depois, é claro, me livrei de todas as influências: sobretudo em relação ao primeiro, o poeta mais completo que a literatura brasileira tem.

Poemasmodelo

CANÇÃO

(Cecília Meireles)

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

***

VIAGEM

(Paulo César Pinheiro)

Oh, tristeza, me desculpe
Tou de malas prontas
Hoje a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar.

Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando
Desde muito longe, lá do fim do mar.

Vamos visitar a estrela da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas vai escondida
Querendo brincar.

Senta nesta nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas
Minha poesia, dançam nossa valsa
Pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol.

Oh poesia, me ajude
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias
Pelos campos verdes
Que você batiza de jardins-do-céu

Mas pode ficar tranquila, minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela-guia
Num clarão de lua quando serenar.

Ou talvez até quem sabe
Nós só voltaremos no cavalo baio
O alazão da noite
Cujo nome é raio, raio de luar.

Comentários

Deixe seu comentário
Seu endereço de email não será revelado.

publicidade
© Copyright 2022. Portal Correio. Todos os direitos reservados.