O trabalho formal, antes símbolo de estabilidade e orgulho, tornou-se sinônimo de limitação para muitos jovens. A pergunta é: o que mudou e o que ainda pode ser salvo?
Tenho um filho de 9 anos e 8 meses.
Recentemente, estávamos apenas nós dois no carro, voltando da escola. Como sempre faço, perguntei como tinha sido o dia, o que ele tinha aprendido e como estavam os colegas.
Ele foi contando um a um, até que, de repente, soltou:
— Só tem um que é muito chato… aquele tem cara de quem vai ser CLT.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, surpreso com a resposta.
Então, parei o carro e perguntei:
— Filho, você sabe o que é CLT?
Ele respondeu com uma sinceridade desconcertante:
— É alguém que não vai ter sucesso na vida.
Aquela frase me atravessou.
Não pela falta de conhecimento técnico, mas pela mentalidade que ela representa a visão de que trabalhar com carteira assinada é sinônimo de limitação, e não de conquista.
Como chegamos a esse ponto?
Na década de 1960, ter a carteira de trabalho assinada era um símbolo de respeito e estabilidade.
Era o sonho de qualquer jovem que quisesse um “futuro garantido”.
Além disso, havia um valor simbólico: em tempos de ditadura, bastava mostrar a carteira de trabalho para provar que era um cidadão produtivo, um trabalhador, e não um “vagabundo” sujeito a perseguições.
Com o passar dos anos, as empresas começaram a sofisticar suas ofertas: vieram os planos de saúde, vales, previdência privada e uma série de benefícios que tornavam o emprego formal um passaporte para a classe média.
Ter carteira assinada era sinônimo de vitória.
Na década de 1990, com a chegada da globalização e o avanço da tecnologia, o cenário começou a mudar.
O mundo passou a valorizar o desempenho, a agilidade e a inovação mais do que o tempo de casa.
As carreiras lineares aquelas em que o profissional entrava e se aposentava na mesma empresa começaram a desaparecer.
Hoje, o emprego tradicional sofre uma transformação sem precedentes.
A pejotização, antes exceção, tornou-se alternativa comum.
Os aplicativos de transporte, entrega, ensino e tecnologia criaram uma nova lógica de renda: o trabalhador decide quando e quanto trabalha.
A liberdade passou a valer mais do que o crachá.
O problema é que, junto com essa liberdade, veio também a insegurança.
Não há mais planos de carreira bem definidos, nem aposentadoria previsível.
Os vínculos ficaram frágeis e a sensação de pertencimento, quase inexistente.
E, nesse meio, há uma geração a do meu filho e de milhões de jovens crescendo com a ideia de que ser CLT é coisa de quem “se acomoda”.
Para eles, sucesso é sinônimo de autonomia, propósito e flexibilidade.
Mas, se por um lado esse movimento representa uma busca por liberdade, por outro expõe uma crise de identidade profunda nas relações de trabalho.
Há muitos motivos que explicam essa transformação alguns econômicos, outros culturais e tecnológicos.
Entre eles, destaco:
As regras do jogo mudaram e o trabalho também precisa mudar.
A verdade é que o modelo da CLT não é o inimigo.
O problema está na forma como o trabalho é conduzido dentro das empresas.
O que as pessoas buscam hoje é pertencer a um ambiente que as respeite e as inspire.
Um local onde possam crescer, contribuir e sentir que estão evoluindo, não apenas cumprindo horário.
E isso passa por atitudes simples, mas revolucionárias:
Ninguém mais quer passar 30 anos no mesmo lugar e está tudo bem.
A estabilidade hoje não está no crachá, mas na capacidade de aprender e se reinventar.
O emprego para a vida deu lugar a um ciclo de experiências e projetos.
Mas o vínculo humano ainda é o mesmo.
As pessoas continuam buscando sentido, reconhecimento e dignidade.
E as empresas que entenderem isso primeiro terão uma vantagem competitiva imensa.
Talvez o trabalho do futuro seja híbrido parte CLT, parte autônomo, parte remoto, parte presencial.
Mas, independentemente do formato, ele precisará ser humano.
Enquanto a CLT muda, o que não pode mudar é o respeito.
Porque, no fim das contas, todo trabalhador seja CLT, PJ ou freelancer quer a mesma coisa: ser valorizado pelo que entrega, e não pelo número que consta em sua carteira.
“O modelo de trabalho pode mudar, mas o desejo por dignidade e propósito é o mesmo desde sempre.”
Sobre o autor:
Josuel Gomes é empresário, escritor e CEO do JoGroup.
Autor da trilogia Mente Empreendedora, Mente Vendedora e Mente Sábia.
Atua há mais de 30 anos no desenvolvimento de negócios e pessoas.
Instagram: @josuelgomes