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Josuel Gomes

O trabalho formal, antes símbolo de estabilidade e orgulho, tornou-se sinônimo de limitação para muitos jovens. A pergunta é: o que mudou e o que ainda pode ser salvo?

Tenho um filho de 9 anos e 8 meses.
Recentemente, estávamos apenas nós dois no carro, voltando da escola. Como sempre faço, perguntei como tinha sido o dia, o que ele tinha aprendido e como estavam os colegas.
Ele foi contando um a um, até que, de repente, soltou:
— Só tem um que é muito chato… aquele tem cara de quem vai ser CLT.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, surpreso com a resposta.
Então, parei o carro e perguntei:
— Filho, você sabe o que é CLT?
Ele respondeu com uma sinceridade desconcertante:
— É alguém que não vai ter sucesso na vida.

Aquela frase me atravessou.
Não pela falta de conhecimento técnico, mas pela mentalidade que ela representa a visão de que trabalhar com carteira assinada é sinônimo de limitação, e não de conquista.
Como chegamos a esse ponto?

De símbolo de segurança a rótulo ultrapassado

Na década de 1960, ter a carteira de trabalho assinada era um símbolo de respeito e estabilidade.
Era o sonho de qualquer jovem que quisesse um “futuro garantido”.
Além disso, havia um valor simbólico: em tempos de ditadura, bastava mostrar a carteira de trabalho para provar que era um cidadão produtivo, um trabalhador, e não um “vagabundo” sujeito a perseguições.

Com o passar dos anos, as empresas começaram a sofisticar suas ofertas: vieram os planos de saúde, vales, previdência privada e uma série de benefícios que tornavam o emprego formal um passaporte para a classe média.
Ter carteira assinada era sinônimo de vitória.

Na década de 1990, com a chegada da globalização e o avanço da tecnologia, o cenário começou a mudar.
O mundo passou a valorizar o desempenho, a agilidade e a inovação mais do que o tempo de casa.
As carreiras lineares aquelas em que o profissional entrava e se aposentava na mesma empresa começaram a desaparecer.

A revolução silenciosa do trabalho

Hoje, o emprego tradicional sofre uma transformação sem precedentes.
A pejotização, antes exceção, tornou-se alternativa comum.
Os aplicativos de transporte, entrega, ensino e tecnologia criaram uma nova lógica de renda: o trabalhador decide quando e quanto trabalha.
A liberdade passou a valer mais do que o crachá.

O problema é que, junto com essa liberdade, veio também a insegurança.
Não há mais planos de carreira bem definidos, nem aposentadoria previsível.
Os vínculos ficaram frágeis e a sensação de pertencimento, quase inexistente.

E, nesse meio, há uma geração a do meu filho e de milhões de jovens crescendo com a ideia de que ser CLT é coisa de quem “se acomoda”.
Para eles, sucesso é sinônimo de autonomia, propósito e flexibilidade.

Mas, se por um lado esse movimento representa uma busca por liberdade, por outro expõe uma crise de identidade profunda nas relações de trabalho.

O que realmente mudou

Há muitos motivos que explicam essa transformação alguns econômicos, outros culturais e tecnológicos.
Entre eles, destaco:

  1. A digitalização do trabalho: a tecnologia permitiu que qualquer pessoa pudesse empreender, prestar serviços e gerar renda sem vínculo empregatício.
  2. A velocidade da informação: vivemos em um mundo onde tudo é para “ontem”. Carreiras longas parecem lentas demais para quem nasceu na era da gratificação instantânea.
  3. A ascensão da mentalidade freelancer: o desejo por flexibilidade e liberdade cresceu mais rápido do que a capacidade das empresas de se adaptar.
  4. A cultura do sucesso rápido: o novo ídolo não é o gerente estável, mas o influenciador que “viralizou” da noite para o dia.
  5. A crise de propósito nas organizações: muitas empresas ainda comunicam metas, mas não propósito. E sem sentido, ninguém permanece.
  6. O desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal: o burnout virou epidemia; a geração Z quer viver, não apenas sobreviver para o contracheque.
  7. A falta de reconhecimento humano: ambientes frios, autoritários e hierárquicos afastam os talentos mais criativos.
  8. A ausência de diálogo real: gestores que falam demais e escutam de menos criam equipes desmotivadas.
  9. A percepção de desigualdade: salários estagnados e jornadas exaustivas contrastam com bônus milionários em cargos de diretoria.
  10. O avanço da economia sob demanda: a ideia de “ter um chefe” começa a ser substituída pela de “ter clientes”.

E agora? O que fazer?

As regras do jogo mudaram  e o trabalho também precisa mudar.
A verdade é que o modelo da CLT não é o inimigo.
O problema está na forma como o trabalho é conduzido dentro das empresas.

O que as pessoas buscam hoje é pertencer a um ambiente que as respeite e as inspire.
Um local onde possam crescer, contribuir e sentir que estão evoluindo, não apenas cumprindo horário.

E isso passa por atitudes simples, mas revolucionárias:

  • Criar um ambiente saudável de trabalho, onde a saúde mental seja tratada com seriedade, não como modismo.
  • Respeitar opiniões e diferenças, cultivando um espaço onde cada voz é ouvida e valorizada.
  • Ser um líder inspirador, que ensina pelo exemplo e guia com propósito.
  • Compartilhar a visão, fazendo com que colaboradores entendam que o sucesso da empresa é, também, o sucesso deles.
  • Humanizar a gestão, lembrando que metas são importantes, mas pessoas são indispensáveis.

O novo pacto entre empresas e profissionais

Ninguém mais quer passar 30 anos no mesmo lugar  e está tudo bem.
A estabilidade hoje não está no crachá, mas na capacidade de aprender e se reinventar.
O emprego para a vida deu lugar a um ciclo de experiências e projetos.

Mas o vínculo humano ainda é o mesmo.
As pessoas continuam buscando sentido, reconhecimento e dignidade.
E as empresas que entenderem isso primeiro terão uma vantagem competitiva imensa.

Talvez o trabalho do futuro seja híbrido parte CLT, parte autônomo, parte remoto, parte presencial.
Mas, independentemente do formato, ele precisará ser humano.

Enquanto a CLT muda, o que não pode mudar é o respeito.
Porque, no fim das contas, todo trabalhador seja CLT, PJ ou freelancer  quer a mesma coisa: ser valorizado pelo que entrega, e não pelo número que consta em sua carteira.

“O modelo de trabalho pode mudar, mas o desejo por dignidade e propósito é o mesmo desde sempre.”


Sobre o autor:
Josuel Gomes é empresário, escritor e CEO do JoGroup.
Autor da trilogia Mente EmpreendedoraMente Vendedora e Mente Sábia.
Atua há mais de 30 anos no desenvolvimento de negócios e pessoas.
Instagram: @josuelgomes

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