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Professor Trindade

Dia 16 de janeiro de 1963. Piancó-PB. Eu tinha cinco anos de idade. Era noite. Acho que meia noite ou uma da manhã.

A cidade adormecida. Meu pai teimava em descaroçar o algodão, que tomava todo um compartimento da casa.

Não sei se estava faltando luz, ou se ainda era naquele tempo em que a energia de [do açude de] Coremas faltava e o motor da luz desligava e a cidade ficava no escuro; ou, simplesmente, estava faltando energia. Só sei que não havia luz!

Eu estava no colo do meu pai. Ele me pediu para segurar o candeeiro. Minha mãe pensava que papai tinha pedido para eu segurar só um pedacinho; mas, como eu demorasse com o objeto na mão, mamãe o admoestou:

– Zé Trindade: esse menino derruba esse candeeiro e incendeia a casa!…

Meu pai:

– Deixe de besteira. Deixe o bichim segurar… E me abraçou, firme e carinhosamente.

Sei que fomos dormir e, no outro dia, nove da manhã, recebemos a notícia da morte dele. 

Momento de poesia

Dois poemas lembrando meu pai:

O RIO

(João Trindade)

O Rio Piancó tem minha infância

Tem a enxada do meu pai, o chapéu, o corpo

E a cruz.

O Rio Piancó tem minha saudade

O choro da minha mãe

O choro de todos nós.

O Rio Piancó tem nosso adeus,

Às pressas, sem qualquer explicação.

O Rio Piancó guarda minha angústia,

Minha dor

E meu coração.

O RIO (2)

(João Trindade)

Sob esse rio nadou meu pai

Às margens dele

Lavrou e morreu

Alimentou-se, alimentou a família

A feijão de corda, carne, leite, arroz da terra

Tomate cereja e outras vidas mais…

Esse rio contém minha história

Pedaço de glória

De um menino que cresceu

Só com a imagem

Da enxada e um sonho

Tormento medonho

Que até hoje me sustenta.

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