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Professor Trindade

Há professores que marcam e nunca saem da nossa mente: seja porque nos incentivaram, seja porque nos desestimularam. Mas marcam! Alguns ficam, inclusive, arraigados no nosso modo de dar aula (quando se é também professor), nos gestos, nos gostos…

No Colégio Estadual de Jaguaribe, entre os que me marcaram e cuja lembrança não sai, foi o professor Nilo, de Desenho, na 7ª série.

Eu chegara de Patos (tinha 14 anos) e, com a timidez que sempre me caracterizou, ficava um pouco isolado na sala. Aproximava-me de poucos.

De modo que ficava lá, na minha carteira, mais lendo do que prestando a atenção às aulas. E nas das chamadas “ciências exatas”, o sofrimento era grande; sobretudo em Matemática (meu “calo” eterno) e Desenho.

O professor de Desenho era maravilhoso… bem-humorado, bonachão (sem ser gordo), alegre; contrastava com a maioria dos que lecionavam as tais ciências, que parece que se esmeravam em ser “durões” e antipáticos.

Nunca fui chegado a tais ciências; como já disse; sobretudo, Matemática. E, “para acabar de acertar”, na 7ª tinha mais essa “tal” de Desenho. Havia uns cálculos horrorosos: achar uma tal de “bissetriz” (não sei nem se se escreve assim).

Mas com Nilo a coisa era diferente. O bom humor dele nos fazia ficar à vontade. O meu problema, no entanto, era com a danada da matéria.

De modo que, nas aulas de desenho, eu me danava a escrever uma “novela” cujo enredo, para um adolescente de 14 anos, era até razoável. O professor falando e eu envolto na minha “novela”…

Legenda da foto:
O antigo Colégio Estadual de Jaguaribe

De repente, a voz do professor:

– João!

(Tremi, de cima abaixo)

– Você entendeu o que acabei de explicar?

– …

(Meu Deus… Suspensão, na certa; como explicar lá em casa?)

– Não estava prestando a atenção, não é?

– …

– O que é isso que você está escrevendo?

Balbuciei: “Uma novela”.

– Dê-me aqui (disse o professor).

– Muito boa!… A partir da próxima aula, em toda aula minha você vai ler um capítulo.

– Pessoal, a partir de agora, João vai ler, em toda aula minha, um capítulo da novela dele.

Para mim foi, ao mesmo tempo, bom e ruim; bom porque meu lado de candidato a escritor estava sendo conhecido; porém, ruim, porque, na certa, a partir dali seria descoberto por uma colega por quem me apaixonara e inspirara o enredo. Era, realmente, ficção; tanto que a protagonista morre, mas havia muito dela.

Professor Nilo (que, se não me engano, também morava, como eu, na Vila dos Motoristas) é, sem dúvida, um capítulo importante na trajetória da minha vida.

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