Dia 16 de maio de 2025, numa noite chuvosa de sexta-feira, realizei um dos maiores sonhos da minha vida: ingressar na Academia Paraibana de Letras.
Nas linhas a seguir, fragmentos do meu discurso de posse:
A palavra é o fundamento da vida. Graças à palavra, o ser humano se diferencia dos demais e graças também a ela consegue moldar a existência e se adaptar às situações: construir ou destruir. Claro que pode ser usada para o bem ou para o mal; mas, felizmente, se pesarmos as duas coisas, é mais usada para o bem.
Comecei a ter contato com a palavra, logo cedo, em tenra idade, e, a partir dela, vieram o encantamento com e a paixão pela literatura, pela qual fui conquistado, de quem sou prisioneiro perpétuo, e da qual não faço qualquer questão de me livrar, pois que é um grande amor (…).
Vocês hão de me perguntar:
E como nasceu esse grande amor?
Como todo grande e verdadeiro amor, por obra do destino. Conto-lhes:
Na nossa casinha da Peregrino de Araújo, onde passei boa parte da minha infância, em Patos, havia uma coisa que me intrigava: um quartinho no muro (sim, porque no sertão não chamamos a parte de trás da casa de quintal; chamamos de muro) que vivia fechado.
E eu, curioso como toda criança, perguntava:
– Mamãe, por que esse quartinho vive fechado?
Mamãe se limitava a ficar calada. Aquilo aguçou, ainda mais, minha curiosidade.
Certo dia, sorrateiramente, descobri onde mamãe colocava a chave e furtei.
Quando abri, qual não foi meu espanto quanto vi um monte de livros espalhados pelo quarto. Eram livros empilhados: livros e mais livros, espalhados pelo chão.
Eu tinha apenas oito anos, mas não pude deixar de ter uma pequena revolta: qual a razão de se esconderem livros?
Mas a revolta logo passou e passei a manuseá-los. O primeiro que peguei, foi: “Você Quer Casar?”. Certamente deveria ser um daqueles manuais “ensinando” a como se comportar no casamento. Aquele, evidentemente, não me interessou.
Mas eis que o segundo livro foi a “Antologia Nacional”, de Carlos de Laet. Era um livro volumoso, de capa dura. Abri ao acaso e aí deparei-me com um poema que me hipnotizou e me fez até hoje ser profundamente apaixonado pela poesia: o poema “Ismália”, de Alphonsus se Guimaraens:
“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
(…)
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…”
Aquilo me tocou e comoveu a tal ponto que li com os olhos cheios de lágrimas; lágrimas que, neste momento, estão saindo dos meus olhos.
Nascia ali, naquele “encontro”, o poeta João Trindade (esse é o título que mais me enaltece!); o jornalista João Trindade; o professor Trindade; o advogado João Trindade… Enfim, ali, eu nascia para a vida! E todas essas atividades têm como instrumento de trabalho a palavra (…).
Um pouco de minha trajetória:
Nasci em Piancó, mas, aos 5 anos de idade, com a morte de meu pai (meu pai morreu quando eu tinha apenas 5 anos!) fomos para Patos, onde fiquei até os 14 anos e, aos 14, viemos para João Pessoa, onde fixei, em definitivo, residência.
Com 17 anos, decidi que precisava trabalhar com carteira assinada (…). Consegui um lugar na Rádio Correio como Rádio-escuta (captador e redator de notícias para o noticiário da emissora (de hora em hora): o Rádio repórter CP.
Depois da Rádio, agora já com 20 anos, em 1978, fui para o Jornal Correio da Paraíba, onde era redator e mantinha uma coluna diária na página de esporte. Posteriormente, fui para o Norte, onde passei pouco tempo como repórter (…).
Anos depois, em 1990, tive a honra de ser editor do consagrado suplemento literário Correio das Artes, de União. Aí, juntaram-se, então, as duas palavras gêmeas para mim: a palavra literária, artística, com arte, e o jornalismo (…).
Desde 2003, mantenho coluna dominical no jornal “Correio da Paraíba”; antes, no formato impresso; e, com a extinção dessa versão, no “Portal Correio”, em que escrevo artigos e crônicas sobre assuntos variados, com ênfase para os que versam sobre Língua Portuguesa. Também assino a coluna “Sempre na Área” no Portal esportivo “Arena Correio”.



E como surgiu o professor?
Também com 17 anos, comecei a dar aula de Português num pequeno colégio (…): o Colégio Paulo VI. Depois, fui para colégio Pedro II (…). Mas o que eu queria mesmo era ser professor de cursinho. Procurei o dono do União, Antônio Augusto Arroxelas (aí, eu já tinha 20 anos). Isso foi em outubro de 1978. No começo de 1979, eu já estava lecionando no União, Águia, Pio XII, Pio X, João XXIII, e CPU. Depois, veio o CA Colégio e Curso (onde, além de professor, eu era também sócio). Ainda lecionei no Dimensão e CEPUC (ambos de Campina Grande); Objetivo, Geo-dinâmico (este, em Patos) e tantos outros grandes cursos (…); sempre lecionando Português e Literatura Brasileira. Do magistério do Ensino médio fui para o meu querido Ipê (depois, Centro Universitário de João pessoa- Unipê). A princípio, como professor de Português, mas, passado um ano, assumi, em definitivo e, por 24 anos, a disciplina Introdução ao Direito.
Lecionei, também, na Universidade Federal da Paraíba, a disciplina Instituições de Direito Público e de Direito Privado.
Agora, o escritor:
Não pretendo cansar vocês falando sobre todas as obras que publiquei. Falarei, apenas, dos livros que considero mais marcantes na minha carreira:
O de estreia: o livro de poesia “Um Pouco Além do Sonho”, concebido quando eu tinha entre 18 e 22 anos. Publicado em 1981, pela A União Companhia e Editora, quando eu estava com 22.
Depois dele, destaco o meu livro de sucesso nacional (não me considerem imodesto, por favor; é pura verdade): “A Língua no Bolso”, publicado por uma das mais importantes editoras do Brasil: a Leya/Alumnus, em 2013; hoje, na 3ª edição. A primeira foi pela Grancursos.
Em 2018, publiquei, também pela Leya/Alumnus, “Português Descontraído”. E pela Sal da Terra, “Guia Prático de Introdução ao Direito”.
Recentemente, em 2022, publiquei pela ideia, meu livro de crônicas “O Estranho Professor de Violão”.
Gostaria de destacar, já que estamos na Casa de Augusto dos Anjos, que fui conferencista nas comemorações oficiais do 1º Centenário do poeta, no dia 20 de abril de 1984, proferindo a palestra “Desmistificando Augusto dos Anjos”. O evento foi uma promoção conjunta da Câmara Municipal de João Pessoa e Prefeitura e aconteceu na Casa de Napoleão Laureano.
Em 1985, proferi, nesta Casa, a conferência “Augusto dos Anjos, Breve Itinerário”, dentro das comemorações dos 400 anos da Paraíba, e que foi publicada em plaqueta (sim, o nome é plaqueta!), por esta Academia de Letras (…).
Se falei tanto para vocês sobre minha vida, não foi, evidentemente, por vaidade ou por narcisismo; mas sim, para justificar a base da minha chegada aqui: o amor, a dedicação, o carinho e a entrega total às letras.
E, para mim, é mais do que um orgulho; é a realização de um sonho fazer parte, a partir de agora, desta Casa. Essa Casa que é o templo do saber. Qualquer verdadeiro escritor acalenta a vontade de ingressar na Academia do seu estado. E com que orgulho estou aqui! Com que orgulho posso chamar, a partir de agora, os ases que compõem esta Instituição – homens e mulheres – de confrades e confreiras, respectivamente. E agradecer pela confiança depositada em mim. É grande a responsabilidade e não há palavras para defini-la.
Mas gostaria de fazer um agradecimento especial a uma pessoa: a secretária desta Casa e minha ex-aluna Tânia Enedino, que me apoiou bastante e sempre me incentivou a tentar uma cadeira aqui, desde muito tempo; desde muito antes da recente eleição; é bom que se frise! Tânia é, sem dúvida, o prumo, o rumo dessa Academia; a pessoa que tem um zelo e uma dedicação indefinível a este Templo. Obrigado, Tânia!
Falemos, agora, um pouco, sobre meus antecessores. Aliás, todos professores, como eu!. (…)
ADOLFO Tácito da Costa CIRNE (patrono) nasceu em Bananeiras (PB), no dia 24 de agosto de 1855 e faleceu no dia 21 de junho de 1922. De origem modesta, mas com muito desprendimento, transpôs todas as dificuldades que o destino lhe apresentara e conseguiu realizar o sonho de menino pobre e estudioso que desejava vencer na vida, bacharelando-se em Direito pela Faculdade do Recife, em 1876 (…).
Adolfo Cirne não deixou uma produção literária numerosa, conhecendo-se, apenas, um trabalho de sua autoria, publicado em 1896: Os civilistas e o Direito Civil, reproduzido no 1º número da Revista da Ordem dos Advogados de Pernambuco.
MÁRIO MOACYR PORTO (fundador) nasceu no dia 03 de janeiro de 1912, em João Pessoa (…). Faleceu nesta capital, em 20 de novembro de 1997. Formou-se em Ciências Jurídicas pela Faculdade do Recife. Nomeado Desembargador, assumiu a Presidência do Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional da Paraíba.
Ingressando no magistério superior, ascendeu ao cargo de Reitor da UFPB, onde já era catedrático de Direito Civil, tendo também exercido a direção da Faculdade de Direito.
Da Prolífera obra dele, destaco: O efêmero e o eterno no Direito; Ação de responsabilidade civil e outros ensaios; Temas de responsabilidade civil.
Invoco, agora, Piancó, a minha cidade querida, na qual nasci. Que viu meu pai e minha mãe lutarem pela vida e ambos estão enterrados lá.
Em Piancó também nasceu José Loureiro Lopes, o grande educador, (conhecedor profundo da obra de Gramsci), que fez história na educação da Paraíba; que exerceu inúmeras funções importantes: todas ligadas à educação e foi um dos sócios fundadores do Ipê. Depois Centro universitário de João Pessoa (…).
José Loureiro Lopes (meu antecessor imediato) nasceu em 26 de junho de 1940, em Piancó, Paraíba (…). Estudou no Seminário de Patos, concluindo o curso de Humanidades no Seminário Arquidiocesano da Paraíba, tendo curso de Licenciatura e Mestrado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália; doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Pós-doutorado na Alemanha, em 1990.
Ingressou no magistério superior, por meio de concurso público, lecionando na Universidade Federal da Paraíba as disciplinas Sociologia da Educação e Psicologia da Educação. Exerceu, entre outras, as funções de Diretor da Rádio Alto Piranhas, de Cajazeiras; Membro do Conselho Estadual de Educação, em vários mandatos; Secretário da Educação e Cultura do Estado da Paraíba; Pró-Reitor de Graduação da UFPB; Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UFPB; Membro fundador e Conselheiro do IPÊ; Pró-Reitor de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da UNIPÊ.
Bibliografia:
Gramsci, um novo bloco histórico; O salário da educação, aspectos legais e sistemática operacional; Ensino (…); Teoria e prática em educação; Educação de Adultos no Brasil: Legislação e Ideologia (São Paulo: PUC/1984-Tese de doutorado) (…).
Antes de encerrar, deem-me licença para falar um pouco sobre aqueles que me trouxeram à vida e aqueles que são a razão do meu viver.
Pela ordem respectiva:
Meus pais, José Trindade Monteiro e Cecília Cavalcante da silva. Meu pai, fusão maravilhosa de enxada e poesia; minha mãe, encarnação do carinho, do equilíbrio e da sobriedade. E que soube, ao longo dos anos, aturar as minhas intempestividades.
Minha esposa, Suely de Carvalho Trindade Cavalcante (que, por razões alheias a nós, não pôde estar aqui). Sem qualquer dúvida ou simbologia metafórica, A RAZÃO DO MEU VIVER! Acreditem, eu realmente não sei viver sem Suely, pois ela é, simplesmente, o alicerce da minha existência!
Do ventre dela, de nós dois e do nosso amor nasceram o sustentáculo da minha vida, a quem tanto ensinei e com quem, hoje, tanto aprendo; a quem tantos conselhos dei e de quem hoje tantos conselhos recebo: o menino mais velho: João Trindade Cavalcante filho e o menino mais novo: José Trindade Monteiro Neto.
Sim, é assim que nós, sertanejos, chamamos os filhos. Assim como acontece no famoso romance do meu ficcionista preferido Graciliano Ramos. Só que nossas vidas não são secas; na nossa convivência, predomina e predominará sempre o carinho e o diálogo.
João Trindade Cavalcante Filho é casado com Patrícia Gomes Trindade Cavalcante e eles geraram minhas duas netinhas maravilhosas: Júlia e Ísis.
José Trindade Monteiro Neto é solteiro.
Ambos brilham, intensamente, como juristas e professores, atuando em Brasília; João Trindade Filho como Consultor Legislativo do Senado Federal; José Trindade Neto, como Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados, e muito me orgulham, envaidecem e, sobretudo, engrandecem o pai!
Encerro minhas palavras com versos marcantes (dei meu toque pessoal!) do poema “Ilusão da Vida”, que são uma verdadeira lição, cujo autor é o poeta carioca Francisco Otaviano:
“Quem passou esta vida em brancas nuvens,
Quem passou por esta vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem:
Só passou pela vida, não viveu!”
Tenho absoluta certeza e digo isso com muito orgulho e convicção: não só passei pela vida: VIVI!
VIVI! Pois Deus me guardava para este lugar e hora!
(Muito obrigado!).