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Edilson Pereira Nobre Júnior

No meu tempo de universitário, que a memória insiste em não apagar, recebi uma reprimenda de uma colega de classe, a qual ficou indignada pelo fato de que, durante a leitura dos livros didáticos, sublinhava, com os percalços de uma caligrafia errante, as passagens que considerava mais importantes, para que pudesse realizar um melhor aprendizado. Os textos, segundo a minha amiga, uma vez impressos, eram para ficarem indeléveis. Talvez um culto à beleza da obra do seu autor. Assim não compreendia, pois, desde essa época, achava – e ainda acho – que a busca do conhecimento há que ser algo irrequieto, por sua própria natureza.

                        Se não tinha razão, pelo menos esse costume – que, aos poucos, transferi à literatura – agora vem sendo de uma utilidade inestimável, à medida que o tempo flui. Assim, consigo superar o mar de esquecimentos acerca do que li e, nalgumas vezes, com uma boa surpresa, quando revivi Machado Assis, sendo direcionado para a seguinte narrativa: “Tudo me pareceu natural e necessário. Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu três anos, mas tinha a idade conveniente para ensinar-me a amar”[1].

                        Do Bruxo do Cosme Velhorelembrei, num átimo, “Tia Julia e o escrevinhador”[2], de Mário Vargas Llosa. Ambientado num Peru da década de 1950, o personagem Marito, cujos pais vivem no exterior, mora com o seu tio Lucho, quando vê, inesperadamente, a chegada de tia Julia, irmã de Olga, a esposa do seu tio Lucho, e, assim, o vendaval se aproxima.

                        Júlia, com os seus vinte e cinco anos, a pretexto de se recuperar de seu insucesso matrimonial com um fazendeiro para lá de abastado, regressa da Bolívia, na verdade, determinada a procurar um novo marido. Partidos não faltaram, inclusive um Senador, próspero na política, rondou à espreita, mas não animava, pois pressentia que a vida não passaria do enfadonho, sem o calor luxuriante da alcova.

                        A infalível perspicácia feminina fez com que Júlia logo percebesse que a sua condição de divorciada, notadamente numa época de pretenso rigorismo de costumes, dispensavam os homens já feitos do romantismo. Daí passou a investidas, tendo como alvo Marito, o filho da Dorita, então com 18 anos, fazendo-as com um ar carinhoso, desinteressado, típico das pessoas adultas quando se dirigem às crianças, massem faltar uma pitada provocativa que veio a ser determinante.

                        A curiosidade do estudante de Direito, com pretensões a escritor, transformou-se em paixão, protagonizando uma aventura amorosa sensacional, iniciada nas idas ao cinema, a prosseguir nos bailes, até que o seu conhecimento cria um clima familiar hostil. Daí somente a insensatez dos amantes -que independe de idade, pois é sempre juvenil -, com uma épica fuga para casar,numa tentativa de resolver a situação.

                        Verdadeira ou não, com a narrativa Llosa quer-nos mostrar que aquele que não conheceu uma paixão com uma mulher madura não habitou o país do amor.


[1]Um capitão de voluntários. In: Relíquias da casa velha.

[2]Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. Tradução de José Rubens Siqueira.

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