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Professor Trindade

Parece que estou vendo. O corpo alvo de Izídio, nu, da cintura pra cima; ou melhor: coberto com um lençol muito alvo. Nunca me disseram a idade dele. Devia ter uns trinta anos.

Conheci Izídio – meu primeiro amigo – deitado (ele) numa cama. Não me diziam nada sobre a doença dele. Eu tinha, nessa época, uns quatro ou cinco anos. A verdade é que Izídio estava ali apenas esperando a morte. Fora para Campina Grande extrair uma bala, mas os médicos não conseguiram. Duraria, apenas, no máximo, dois meses.

Nunca me contaram direito a história de Izídio. De modo que a que vou contar aqui deve ter muito da minha imaginação*. Aliás, muitas das histórias que contarei aqui têm muito da minha imaginação: fatos que minha versão pode ter desvirtuado. Sou um sujeito assim: Às vezes acredito que uma coisa aconteceu, então ela vira verdade na minha cabeça; vira uma nuvem que passa: ora nítida; ora distante.

A história que ouvi sobre Izídio foi uma linda história de amor. Digna de romance. Repito: a história é verdadeira. Se minha imaginação aumentar, foi coisa pouca.

Izídio namorava uma moça, lá em Piancó. Os pais e os irmãos dessa moça não queriam, de jeito nenhum, o namoro. Davam nela, amarravam-na no terreiro de casa, deixavam-na de castigo… Tudo isso para que ela acabasse com aquela história de gostar de Izídio.

Izídio resolveu, então, tirar a moça da cidade. Fugir com ela até um sítio próximo, o que se chama, lá no interior, de “roubar”. E rapaz que roubava a moça tinha que receber uma lição. Os irmãos dela resolveram, então, buscar a irmã e tirá-la, “na marra”, de Izídio. Fortemente armados – não sei o número, mas eram muitos – investiram contra ele, que não quis entregar a amada. Em desvantagem, não cedeu, mas terminou perdendo a moça e sendo baleado; e agora estava naquele estado: inutilizado numa cama.

Eu ia para ali, para a casa de Izídio, todas as noites, cantar. Ele adorava me ouvir cantar. Me admirava muito; me achava inteligente. Eu, inocente, não sabia, na época, que Izídio iria morrer tão pouco tempo depois. Acho que ele também não sabia. A história de Izídio merece ser transformada depois em livro (que pretendo escrever), com mais detalhes.

De modo que o primeiro episódio marcante da minha vida foi esse: Izídio, o meu primeiro amigo, morreu por amar demais uma mulher.

O amor e a morte entraram, então, logo cedo, na minha vida, fazendo de mim um sentimental em excesso; um homem dado a paixões descontroladas; uma sensibilidade extrema, carregada de emoções à flor da pele.

Fecho a crônica lembrando a letra da música, cantada por Orlando Dias, a quem eu julgava, inocentemente, imitar, e que cantava, todos os dias, a pedido de Izídio. Talvez fosse a preferida dele:

Calendário

No dia vinte e seis

De cada mês

Eu comemoro a insensatez

De quem me faz infeliz.

E venho a esse bar com minhas penas

Gastar as duas quinzenas

Em homenagem a quem não me quis.

Eu creio que nem Deus

Pode dar jeito

De arrancar a dor do peito

Desse amigo de vocês…

Bebam todos, meus amigos,

A saudade deste otário

Mais uma vez o calendário

Diz que é dia 26.

*Esse texto foi publicado, originalmente, no Jornal O Norte, em 05 de abril de 1992, com outro título. Reproduzi, há pouco tempo, no Facebook e um senhor, de cujo nome não me lembro, que foi amigo e vizinho dele ,me contou, em mensagem direta, naquela Rede, que Izídio era filho de Manoel Vicente, que tinha uma terra no sítio Pitombeira, em Piancó.

Segundo o relato, Izídio era um rapaz corajoso e destemido, e retornara de Brasília (o amigo não sabe precisar o ano), com a intenção de casar-se com a jovem Neném de Jorge, da mesma comunidade.

A família dela não aprovava o namoro; então, ele a raptou, numa madrugada, abrigando-a na casa de um amigo, há ou menos 5 Km dali.

Então, 12 homens, incluindo irmãos da moça, capitaneados pelo pai e tios dela combinaram, na segunda, dia da feira da cidade, a retomada; e, na terça, de madrugada, executaram o plano.

Na madrugada dessa terça-feira,bateram à porta do amigo de Izídio, local que abrigava Neném, a futura esposa deste. Severino Costa, dono da casa, abriu a porta e não pôde esboçar reação, pois se tratava de 12 homens, fortemente armados. Estes renderam Neném e a levaram, arrastada, de volta, passando nas proximidades da casa de Izídio, que ainda dormia. Neném clama pelo Socorro dele, restando a Izídio ir ao encontro dela, armado apenas com uma pequena faca, conhecida como “faca salva-vida”. Izídio deparou- se com um verdadeiro exército e, ao se aproximar, foi alvejado.

Ainda de acordo com a narrativa, Izídio tinha pequeno porte; porém, pôde alcançar um dos tios de Neném, de nome Antônio Sobrinho, bem-sucedido fazendeiro, cravando-lhe a faca no coração,matando-o. Izídio foi atingido na medula espinhal e ficou paraplégico, tendo se casado com Neném, anos depois, falecendo pouco tempo após o casamento; e Neném se exilou num convento de freiras, em Bananeiras.

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