
Meu filho caçula, Zé Trindade, liga pra mim, dizendo que quer me dizer uma coisa, mas está apreensivo, com certo receio de fazê-lo.
– Que é isso, meu filho!… Que besteira é essa? Você nunca teve receio de falar qualquer coisa comigo, ou vice-versa. Diga o que é…
– É que tenho uns poemas que fiz, para mostrar ao senhor, mas só mando se o senhor me garantir que será muito sincero, dirá a verdade e não vai me esconder se estiverem ruins.
– Meu filho, você me conhece e sabe que sou criterioso e “chato”, quando se trata de qualidade literária. Mande.
De imediato, emocionado, lembrei-me do último capítulo do livro O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa, um dos mais belos e comoventes romances que já li. Parecia que estava vendo o filho do também como eu poeta Campos Lara, o protagonista, que, após muito hesitar, mostrou uns versos ao pai e perguntou:
– Prestam? Continuo?
Meu caçula, na adolescência, mostrara-me alguns poemas, assim como o irmão João também já o fizera, naquela fase em que todo menino, uma vez apaixonado, faz versos. Mas versos de adolescente não garantem que o autor será, no futuro, um poeta. O mais velho preferiu o Direito (é, atualmente, reconhecido como um dos mais respeitados constitucionalistas do Brasil) e creio que não se dedica mais à poesia. Eis que o caçula, que também é profissional do Direito, não abriu mão de ser poeta e, segundo me disse, só resolveu me mostrar agora, já adulto, porque prefere continuar e, dependendo do meu aval, publicar.
Os poemas do meu filho José são (sem corujice!) muito bons. Inclusive, destaco duas imagens bem trabalhadas de dois deles:
E, assim,
quanto mais me apego às vinhas
das memórias idas
mais azedo se faz
o escorrer
da recordação.
(Ruínas)
Estaremos
eternamente,
ainda que sós,
seguindo caminhos iguais.
(Suave saudade)
Eis, na íntegra, os dois poemas:
RUÍNAS
“Essas feridas da vida, Margarida
essas feridas da vida, amarga vida…”
(Vital farias)
Inimigo do fim
apego-me às cinzas
às ruínas e aos escombros
ansioso
pela reconstrução.
Até perceber
– para meu assombro –
que a molécula rompida
não se restaura
em comunhão.
Quando muito,
forma cacos,
sobras, fragmentos
de vidro
opacos
iguais aos que se usavam
nos muros de antigamente.
E, assim como tais fragmentos
– que laceram a carne
de quem os violar -,
no mesmo passo caminham
as ruínas da imaginação
[porque toda lembrança
é alterada pela criatividade
da mente que dela se lembra]
pedra talhada
para ser faca
solo arado
para ser árido
sementes que jamais brotarão.
E, assim,
quanto mais me apego às vinhas
das memórias idas
mais azedo se faz
o escorrer
da recordação.
SUAVE SAUDADE
“Como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos”
(Mário Pederneiras)
No estacionamento
do shopping
baldio
À meia luz
de um restaurante
tardio
Seremos nós
um ao outro
um grito de paz
Estaremos
eternamente,
ainda que sós,
seguindo caminhos iguais.
(Suave saudade)