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Professor Trindade

Fiquei indignado ao me deparar, num vídeo do YouTube, com uma observação acerca da música “Sonhos”, sem dúvida o maior sucesso de Peninha: “música brega, música de cabaré”.

Ora, “Sonhos” é uma das composições mais belas que conheço; a letra tem muita poesia; não foi à toa que Caetano Veloso gravou (aliás, desnaturou!).

Sugiro, inclusive, aos leitores que procurem ouvir, também de Peninha, “Que Pena” e “Um Grito Parado no Ar”.

É a última que vou comentar na coluna de hoje.

Vamos à letra; um verdadeiro retrato da realidade brasileira, nos tempos midiáticos que vivemos:

Esse quadrado num canto da sala

Fechou sua boca, roubou seu olhar.

 Você se liga demais em novela,

 Nós nem temos tempo de dialogar…

 Não tem mais carinho, ninguém mais se fala,

 Nós estamos juntos, mas estamos sós.

 Existe um grito engasgado, parado no meio de nós…

 Essas revistas na mesa da sala

 Não falam de nada que eu preciso ouvir

 Essa procura no meio da noite,

 Provoca na gente um cheiro de fim…

 Você sabe mais dos galãs das novelas

 Que do meu esforço pra lhe sustentar…

 Existe um grito engasgado, parado no ar.

            Letra sublime e rica. Por quê?

            Entre outros motivos, pela presença de

            1.Intertextualidade:

            “Um Grito Parado no Ar” é uma peça famosa, de Gianfrancesco Guarnieri, que, tenho certeza, muita gente “boa” e “intelectual” nem sabe que existe.

            2.Metonímia

            “Esse quadrado num canto da sala…”. A televisão, que é retangular, mas, por um processo metonímico, virou “quadrado”.

            3.Hipérbole:

            “Fechou sua boca, roubou seu olhar…” Evidente exagero.

            4.Imagem/metáfora:

            “Existe um grito engasgado, parado no meio de nós…” Imagem poética e comparação implícita.

            5. “Essa procura no meio da noite…”

Maneira poética e suave de falar sobre a ausência do ato sexual.

            6.Sinestesia:

            “Provoca na gente um cheiro de fim…”. Evocação das sensações.

            6. “Você sabe mais dos galãs das novelas

      que do meu esforço pra lhe sustentar…”

            Maneira suave e poética de falar sobre fantasia sexual.

            E ainda dizem que um poeta desse é brega, e que as músicas dele são de “cabaré”…

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