E o Simca Jangada do meu cunhado Francisco Jerônimo singrava, veloz, os caminhos do sertão. Creio que o ano era 1965. Eu tinha, portanto, 8 anos. A alegria era patente na viagem. Ele, praticamente recém-casado com minha irmã Chiquinha, dirigia com o pé forte no acelerador (costume de camioneiros) e assobiava (era um hábito de longas datas). O carro, supermoderno, já tinha rádio e a gente se deliciava com uma música que nunca entendi porque era proibido criança escutar; uma música chamada
Bigorrilho
Lá em casa tinha um bigorrilho
Bigorrilho fazia mingau
Bigorrilho foi quem que me ensinou
A tirar o cavaco do pau (bis para os dois últimos versos).
Trepa Antônio
Siri tá no pau
Eu também sei tirar
O cavaco do pau (bis para toda a estrofe)
Dona Dadá
Dona Didi
Seu marido entrou aí!
Ele tem que sair
Ele tem que sair
Ele tem que sair
Ele tem que sair
Chiquinha mandou desligar.
Perguntei:
– Por quê?
Ela:
– Porque é imoral.
Fez-se silêncio e, não demorou, Francisco começou a assobiar, novamente; desta feita, o “Bigorrilho”; aí a gente (tinha outra criança; não lembro quem era; acho que era o irmão dele Paulinho) começou a cantar; Chiquinha, obviamente, nos mandou calar.
Conforme o leitor viu nas linhas anteriores, não adiantou muito a proibição, porque até hoje sei letra e música de cor.

Mas voltemos à viagem:
A velocidade do Simca levantava poeira na estrada (de barro) que ligava Piancó ao sítio Caiçara, lugar de origem de meu cunhado (parece que ele ia visitar a família).
De repente, paramos, atravessamos um riacho (o carro foi deixado numa das margens) e fomos tomar banho na represa do açude de Coremas.
Nunca mais esqueço esse nome: “Represa do açude de Coremas”.
O que eu queria mesmo era tomar banho naquele açude: o mais lindo que já vi; mas isso, nem pensar, para uma criança da minha idade. O bicho era grande que dava medo; tão grande que a gente o avistava da entrada de Piancó (vindo de quem vem das bandas de Patos).
Voltamos já à tardinha.
Sentimental como sou, retornei com os olhos cheios de lágrima… Como aliás estou agora, sentindo, mesmo após tantos anos, o balançado macio e gostoso da suspensão “moderna” do meu carro preferido.
O leitor há de perguntar a razão do título da crônica: “Uma viagem euma saudade infinita”.
A saudade infinita:
Minha irmã Chiquinha morreu, recentemente: dia 12 de junho… Um dia após vir de Brasília, só para me visitar; e passarmos momentos maravilhosos, aqui em casa, em meio a risadas, bons papos, cerveja, rubacão e muitas lembranças do passado.