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Josuel Gomes

Eu tinha uma gráfica, e estava fornecendo material para um candidato a vereador, que também era construtor, bastante conhecido na cidade. Já tínhamos fechado negócios antes do período de campanha e, por isso, decidi conceder a ele o direito de realizar o pagamento após o término das eleições.

No entanto, no dia da eleição veio a surpresa. Isso mesmo, ele perdeu! Agora, ele estava endividado e derrotado. Dessa forma, deixei passar aproximadamente 8 dias e o procurei para negociar. Ele informou que estava quebrado e não teria condições de realizar o pagamento.

Daí eu perguntei se ele tinha carro, imóvel ou algum outro bem, o qual eu pudesse vender e pagar pelo menos o fornecedor de papel, pois o investimento foi extremamente alto. Então, ele afirmou que tinha um prédio em construção e que esse poderia ser o objeto da negociação.

Eu pensei: é uma opção! “Melhor perder uma parte no boi, do que o boi todo”.

Para minimizar o prejuízo pensei: vou saber quanto custa o imóvel, e depois vou negociar. Embora ele fosse um cara honesto, poderia superfaturar, tendo em vista o momento difícil no qual estava passando e, como diz o ditado, “se ele contasse a história para o carroceiro, até o burro chorava.”

Na manhã seguinte, fui levar a minha filha de 5 anos à escola e, durante o percurso, decidi parar em frente ao prédio, onde o vendedor me atendeu. Ele era um sujeito muito educado e simpático e, além da receptividade, apresentou tudo o que eu precisaria saber sobre o imóvel. Quando estava de saída, ele veio ao meu encontro com uma planilha na mão, perguntou o meu nome e telefone. Mas, sabendo eu que ali era a reserva de mercado, ou seja, ele cadastraria meu nome e, mesmo que eu negociasse direto com o dono do prédio, a venda seria dele por ter me atendido e assim não conseguiria reduzir o valor da corretagem, afirmei que não precisava, pois passava por aquele local diariamente, e fui saindo. Mas o vendedor era muito preparado e educado, disse então o seguinte:

— Olha pode aparecer uma promoção e então lhe envio, por isso é importante me fornecer os seus dados.

Naquele momento dei qualquer telefone. Mas então ele complementou:

— Seu nome?

Respondi:

— João!

Lembram que eu estava com a minha filha? Na mesma hora, ela olhou para mim e disse:

— João, papai? Seu nome não é Josuel?

Imagine como fiquei!

Daí em diante, tentei me sair bem da situação e disse:

— Ah! É porque é João Josuel meu nome.

Na mesma hora, minha filha franziu a testa e disse de forma enérgica e convicta:

— Papai, seu nome não é Josuel Gomes da Silva?

Nesta hora eu não tinha mais nada a dizer e apenas peguei na mão dela e fui para o carro. Você acha que parou por aí? Não!

Toda mentirinha causa grande estrago.

Ao chegar na escola, minha filha foi dizer a professora:

— Não entendo meu pai, ele pede para eu não mentir e ele mente!

Após isso a professora veio falar comigo para entender o que estava acontecendo. A partir daquele momento aprendi que valores não são os que você prega ou fala, são aqueles que você vive, que você não abre mão, que você não negocia, seja na vida pessoal ou na vida profissional.

O que isso tem a ver com a empresa? Tudo!

E vou explicar. Imagine uma estrada que leva você de uma cidade a outra:

  • Visão é onde você quer chegar.
  • Valores são as laterais da pista.

Ou seja, as laterais guiam você a não sair do caminho correto. Assim também é na empresa que reúne muitas pessoas de famílias diferentes, cada uma com seus aprendizados, cultura, comportamentos. Dessa forma, é preciso ter valores que devem reger a convivência, a forma como a empresa faz o negócio. Esses valores precisam ser condizentes com a história da empresa. E se você que é líder não vive, você acha que seus colaborares vão viver?

Assim os valores devem ser inegociáveis.

Nas minhas palestras quando falo de valores, pergunto para plateia quem acabaria a fome no mundo se pudesse. Todos, então, levantam a mão. Portanto acrescento: mas se para tal atitude você tivesse que matar uma criança inocente, quem ainda ficaria com a mão erguida?

Até hoje ninguém. Antes eu falava sobre matar um “ser humano”, até que um dia uma jovem ficou com a mão levantada e eu fiquei surpreso, fui até ela e perguntei:

— Você mataria?

E ela respondeu:

— Me dê o nome deste ser humano, porque se for alguns que eu conheço, eu mato!

Ou seja, até a vida é colocada em uma escala de valores. Se fosse alguém que no julgamento dela era uma má pessoa, ela pegaria para o sacrifício, mas uma criança inocente ela não faria.

É comum, ver nas empresas carta de valores que são bonitas, são universais, mas que só serve para “gringo” ver, para enfeitar as paredes. Se por acaso você perguntar aos colaboradores, será até motivos de piadas.

Por isso, construa um ambiente no qual os valores possam ser comunicados, compartilhados e vividos por todos, seja um exemplo, seja congruente entre o discurso e prática, só assim você conseguirá fazer com que todos vivam os valores.

Naquele dia eu aprendi, o verdadeiro sentido das frases: “O que você faz, fala tão alto que não escuto o que você diz” e “as palavras convencem, mas o exemplo arrasta”.

Pergunte-se: a sua narrativa está congruente com as suas ações?

Caso queria falar comigo: [email protected]
Instagram: @josuelgomes

Revisão: Vitória Silva.  
(A menininha de 5 anos, que hoje tem 22)

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