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Professor Trindade

A Cacimba

Tá vendo aquela cacimba
Lá na bêra do riacho,
Im riba da ribancêra,
Qui fica, assim, pru dibaxo
De um pé de tamarinêra?

Pois, um magote de môça
Quage toda menhanzinha,
Foima, assim, aquela tuia,
Na bêra da cacimbinha
Tomando banho de cuia!

Eu não sei pru quê razão,
As águas dessa nacente,
As águas qui alí se vê,
Tem um gosto deferente
Das cacimba de bebê…

As águas da cacimbinha
Tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça…
Tem um gostim do suó
Dos suvaco déssas môça…

Quando eu vejo essa cacimba,
Qui inspio a minha cara
E a cara torno a inspiá,
Naquelas águas quilara,
Pego logo a desejá…

…Desejo, pra que negá?
Desejo ser um caçote,
Cum dois óio desse tamanho!
Pra vê, aquele magóte
De môça tumando banho!

O poema acima transcrito, A Cacimba, é de autoria do poeta paraibano Zé da Luz, que, infelizmente, anda um tanto quanto esquecido, a exemplo de outros do nosso estado.

Falemos, então, um pouco sobra a vida, a obra e os aspectos estilísticos do autor e apresentar mais dois poemas dele considerados bem significativos.

Professor e poeta João Trindade fala sobre a vida, obra e estilo de Zé da Luz, na Academia Paraibana de Letras

Vida

Severino de Andrade Silva, cujo nome literário é Zé da Luz, nasceu em Itabaiana, Paraíba, em 1904 e morreu no Rio de Janeiro, em 1965. Cordelista, poeta, alfaiate, sua poética representa, sobretudo, a vida árida do sertão nordestino, a partir do ponto de vista do eu-lírico sertanejo. A linguagem de seus poemas é fortemente influenciada pela oralidade, com narrativas que versam sobre os valores e tradições da cultura popular.

Em 1913, devido à morte do pai, abandona, aos 11 anos, os estudos, no terceiro ano do ensino primário, assumindo, então, a profissão do genitor e passando a trabalhar numa oficina de alfaiate. Por influência do irmão, o poeta e declamador Sebastião Bastos de Andrade, começa a fazer versos e se aproxima de outros intelectuais paraibanos.

Muda-se para o Rio de Janeiro, em 1936, depois de publicar seu primeiro livro de poemas: Brasil Caboco, que tem prefácio de José Lins do Rego. O livro traz influências das temáticas do nacionalismo e da crítica social, com poemas que retratam a memória cultural, valores e crenças do sertão; narrativas em linguagem coloquial, sobre os modos de vida popular; reivindicam uma identidade nacional alternativa à dos centros urbanos.

Os poemas de Zé da Luz não seguem a norma-padrão, nem a ortografia formal (o que não significa, obviamente, que ele desconhecesse os cânones da Língua Portuguesa), mas possuem uma cadência própria, que facilita a memorização.

Em 1951, seus poemas são declamados na Rádio Tabajara da Paraíba, no programa Mensagem para o Rancho, apresentado pelo irmão Sebastião. Em 1954, publica o segundo livro de poemas: O Sertão em Carne e Osso.

O ambiente do sertão é enfatizado e nos seus versos, tanto na constituição dos personagens e suas vidas áridas, quanto no enaltecimento da paisagem e dos valores sertanejos. Por meio da coloquialidade, são valorizados os saberes empíricos e tradicionais do sertanejo, em detrimento do conhecimento escolar formal. A culpa, o desejo e o pecado são temas recorrentes das narrativas, indicando a relação paradoxal de uma religiosidade mundana.

Análise Estilística

  • Linguagem coloquial reproduzindo o falar sertanejo (trocas fonéticas como “muié” por mulher, “drumisse” por “dormisse”, “véia” por velha)
  • Versos construídos para a declamação oral
  • Predominância de redondilhas maiores (versos de 7 sílabas)
  • Rimas estruturadas para facilitar memorização
  • Tratamento cômico-irônico de temas sérios
  • Temas recorrentes: sertão nordestino, identidade nacional, crítica social, religiosidade popular, amor e desejo

O poeta demonstrou domínio da norma-padrão em alguns poemas, provando que a dicção matuta era escolha estilística deliberada; não limitação em relação ao domínio da Língua Portuguesa.

Recepção crítica

Zé da Luz recebeu reconhecimento imediato de escritores de renome, como José Lins do Rêgo, Manuel Bandeira e Patativa do Assaré; este considerava o autor de BrasilCaboclo o maior poeta brasileiro”.

OBRAS

Brasil Caboclo (1936) 1ª edição – A União. Prefácio de José Lins do Rego. Houve mais 2 edições, publicadas em 1949 e 1956, respectivamente pela seção de livros de o Cruzeiro e pelas edições O Cruzeiro.

O sertão em carne e osso (1954) – Edições Pongetti – Apresentação de Manuel Bandeira.

Brasil Caboclo e O Sertão em Carne e Osso – edição conjunta (1962) – Edições O Cruzeiro.

Brasil Caboclo (2023) – 6ª edição. Sebo Vermelho

Outros poemas do autor

As Flô de Puxinanã

Três muié ou três irmã
Três cachorra da molesta
Eu vi num dia de festa
No lugar Puxinanã

A mais véia, a mais robusta
Era mesmo uma tentação!
Mimosa flô do sertão
Que o povo chamava Ogusta

A segunda, a Guléimina
Tinha uns ói que ô! Maldição!
Matava qualquer cristão
Os oiá dessa menina

Os ói dela parecia
Duas estrela tremendo
Se apagando e se acendendo
Em noite de ventania

A terceira, era Maroca
Com um corpo muito malfeito
Mas porém, tinha nos peito
Dois cuzcuz de mandioca

Dois cuzcuz que, por capricho
Quando ela passou por eu
Minhas venta se acendeu
Com o cheiro vindo dos bicho

Eu inté me atrapaiava
Sem saber das três irmã
Que eu vi em Puxinanã
Qual era a que me agradava

Escolhendo a minha cruz
Pra sair desse embaraço
Desejei morrer nos braços
Da dona dos dois cuzcuz!

Ai Se Sêsse

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o bucho do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

(Texto apresentado no 113º“Pôr do Sol Literário” em 28/05/2026, em homenagem ao poeta Zé da Luz, na Academia Paraibana de Letras)

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