Eu confesso: estava com o coração na mão, temendo (e muito) o que poderia advir. Um temor fartamente alimentado pela mídia nacional e, especialmente, pela internacional – pregando como arautos do caos e exibindo, sem dó, nossos calcanhares de Aquiles.
Em seus noticiários, a Olimpíada brasileira seria um fracasso em função de nossa (in)mobilidade urbana; da insegurança do Rio de Janeiro, dos riscos de atentados, da não conclusão de obras e até da resistente presença do Aedes Aegypti, agora como vetor do Zika.
Seria, em resumo, uma bagunça geral – uma confraternização de terceira categoria em um país do terceiro mundo.
Erraram. E por muito.
Ouso dizer que demos uma lição ao mundo na primeira olimpíada do século, realizada fora do eixo da riqueza mundial.
Fizemos mais com menos. Fizemos muito – da abertura ao desfecho, notabilizando nossa imbatível cordialidade, alegria e emoção.
Sucedemos grandes jogos olímpicos. E certamente seremos sucedidos por edições mais ricas e tecnológicas. Mas nenhuma delas teve ou terá o calor humano da nossa.
Jamais as entidades olímpicas testemunharão nação mais vibrante. E jogos tão cheios de cores e vibrações.
Surpreendemos o mundo em tudo – inclusive na competência, criatividade e organização.
E fomos recompensados.
Verdade seja dita, a melhor campanha olímpica brasileira de todos os tempos não foi boa o suficiente para alcançar a meta de classificação entre os dez países melhor ranqueados. Estacionamos no décimo-terceiro lugar.
Mas algumas de nossas medalhas valeram mais pela qualidade do que pela quantidade.
Ou não foi o desfecho perfeito o ouro do futebol masculino, aguardado há 120 anos, em pleno Maracanã, contra o carrasco alemão?
Por capricho do destino, também assistimos a consagração de um legítimo ameríndio, que escapou da morte tantas vezes em sua infância para se transformar no primeiro brasileiro a conquistar três medalhas em uma única olimpíada.
A história de Isaquias Queiroz, por si só, vale ouro. E me emocionou duplamente, em função da minha cumplicidade com os esportes náuticos.
Para arrematar – e fechar com chave de ouro de muitos quilates, dourando nossa brasilidade – assistimos a maior superpotência mundial se despedir do Rio de Janeiro enfrentando seu maior vexame olímpico.
Sim, os Estados Unidos arrebataram o maior número de medalhas. E também sua maior vergonha.
Por A mais B, sem recuar diante das acusações que ganharam rapidamente as manchetes mundiais, nossa polícia provou o enredo fantasioso e maligno dos atletas americanos.
Diante do irrefutável, o Tio Sam foi obrigado a nos pedir desculpas. E punir seu “Pinóquio” Ryan Lochte, que paga caro por suas mentiras.
Eles não sabiam, mas há muitos carnavais estamos curados do complexo de vira-lata (a frase cunhada há tantos anos pelo genial Nelson Rodrigues para retratar nossa histórica baixa autoestima).
Podemos até estar circunscritos na zona econômica do terceiro mundo. Mas definitivamente não somos uma nação de terceira categoria.
E os deuses olímpicos, testemunhas de tudo isso, disseram amém.