Moeda: Clima: Marés:
Início Geral

Decep?

Duas notícias, uma data – e nenhuma coincidência.

Na primeira, publicada no Valor Econômico, os leitores são informados de que a Câmara dos Deputados rejeitou emenda proposta no Senado Federal que proibia as doações empresariais às campanhas políticas.

Em votação simbólica, os deputados – capitaneados por seu presidente Eduardo Cunha – resolveram que era proibido proibir e mantiveram as doações das empresas.

Na segunda notícia, também veiculada no Valor, é informado que a Comissão Parlamentar de Inquérito instalada para investigar operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vetou, em uma blindagem sem precedentes, a convocação dos diretores da JBS/Friboi.

Detalhe nada técnico: vinte integrantes da CPI receberam um naco generoso dos suculentos cofres da JBS.

A empresa distribuiu quase meio bilhão de reais nas eleições de 2006 a 2014 (exatos R$ 463,4 milhões). Em nota, a JBS/Friboi diz que suas doações foram feitas “dentro da legislação vigente”.

Com esta explicação, porém, a holding só legitima a necessidade de mudança nas leis que regem as engrenagens políticas do Brasil.

E é justamente esta legislação que a população quer ver modificada. O brado das ruas é claro e ecoa em alto e bom som. Os deputados, porém, fingem não escutar.

Eles podem estar surdos, mas o País não.

Se a audição falhar, outros sentidos entrarão em ação. E visualmente, os comportamentos dos integrantes da CPI do BNDES mostram o quão viciada está a relação entre políticos e empresas.

Vendo e ouvindo, esta nação nunca esteve tão segura de que as doações empresariais têm como objetivo o retorno – multiplicado – do que investe em candidatos.

O País entende, por exemplo, que toda a cadeia política beneficiada desenvolve uma espécie de “gratidão” em relação aos seus “benfeitores”. Mas, na seara empresarial, a moeda é financeira. Não se tira do caixa de uma empresa meio bilhão de reais a troco de nada.

Pessoas se gostam; empresas investem.

A blindagem dos deputados gratos em relação a JBS/Friboi é, alegoricamente, a figura mais clara dessa conjunção toma lá, dá cá.

Uma conjunção, aliás, que não se limita a blindar os seus dirigentes, evitando que eles passem pelo constrangedor interrogatório de uma CPI.

Cópias de documentos sobre financiamentos do BNDES ao grupo JBS circulam nos bastidores da Comissão de Inquérito. Neles, constam operações de R$ 7,5 bilhões, feitas pelo banco em favor da holding.

Se estes números forem reais, conheceremos enfim o resultado da aritmética empresarial, usada para calcular seus investimentos políticos.

Uma conta que faz meio bilhão voltar como sete bilhões e meio.

Em mais de quarenta anos dedicados à atividade empresarial, nunca vi investimento tão rentável.

O problema é que, enquanto eles ganham, perdemos todos.

O que eles ainda não sabem, porém, é que – enfim – o Brasil aprendeu a contar.

Palavras Chave

Portal Correio
publicidade
© Copyright 2026. Portal Correio. Todos os direitos reservados.