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Desembargador Edilson Pereira assina crônica ‘Chez Lipp’, narrando sobre as experiências de ‘Jonas’ em Paris

Destaque fica para a passagem pelo tradicional restaurante francês do tipo brasserie (cervejaria), Lipp
Edilson Nobre (Foto: Roberta Mariz/TRF-5/Divulgação)

O desembargador do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), Edilson Pereira Nobre Júnior, assina a crônica Chez Lipp (‘No Lipp’, em francês). No texto, ele narra sobre Jonas, um office-boy com poucas chances de “voos audazes”, mas que sonhava em conhecer Paris.

Ao realizar o sonho, Jonas se apressou para saber tudo sobre a Cidade Luz, onde vive as mais diversas experiências culturais e gastronômicas. O destaque fica para a passagem pelo tradicional restaurante francês do tipo brasserie (cervejaria), Lipp. Veja abaixo.

CHEZ LIPP

Jonas sempre foi um leitor voraz. Dos livros, jornais e revistas veio toda a substância de sua vida, opulenta em necessidades, desde que, aos 11 anos de idade, perdera o seu pai. Mas foi lendo que formou uma personalidade voltada para o humanismo, na qual se reservou um espaço para a paixão por viajar.

O sonho predileto foi o de conhecer Paris, cidade que nunca termina. Somente pôde realizá-lo quando já advogado famoso. A sua juventude como office-boy não lhe permitia voos audazes.

Enfim, chegou o dia de conhecer a cidade luz. Ávido, um mês antes da partida já procurava reforçar as suas leituras sobre a França e a sua capital.Tendo a culinária como hobby, causou-lhe uma irresistível impressão o comentário que Sérgio Augusto (E todos foram para Paris. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011, pp. 48-49), ao narrar que, nos anos 1920, um restaurante fruiu da preferência de Hemingway & Cia. E, o mais impressionante, é que, um dia após, lendo artigo de Eros Grau sobre Jean Paul Belmondo (Jean-Paul Belmondo lá no céu, O Estado de São Paulo, edição de 18-09-2021), viu novamente uma referência ao dito restaurante, também da predileção do ator que protagonizou a nouvelle vague. Tratava-se de uma brasserie chamada Lipp, localizada no Boulevard Saint-Germain, nº 151.

Inevitável o coup de foudre. Tinha de visitar o estabelecimento gastronômico. Recordando-se da experiência de oficial reservista do CPOR, optou por uma visita exploratória, precursora, fazendo-a sozinho, enquanto sua esposa se dedicava a uma jornada de compras. Pediu cervelas remoulade (salsichão com maionese de picles e mostarda) e pommes à l’huile (batatas assadas ao azeite), tal qual o autor de “Adeus às armas”. Superbe! Daí haver insistido em retornar.

Numa segunda vez, com Beatriz, sua esposa, repetiu o pedido e mais satisfeito ficou. Numa terceira visita, desta vez acompanhado também de sua sogra, Dona Aurora. Tentou ser ousado, retornando mesmo aos improvisos da juventude, razão pela qual pediu um prato que veio com uma mistura esquisita. Dona Aurora, com a desconfiança que a idade lhe reservara, optou por algo mais convencional.

O resultado foi que Jonas passou mal no dia seguinte, logo o destinado à visita ao Museu Rodin e, se tempo houvesse, também ao Museu Victor Hugo. O seu intestino tanto incomodou que não conseguiu sair do hotel até que, à noite, veio uma luz no final do túnel. Diante de uma pequena melhora, passou a vista na anotação de uma sugestão de um amigo, à qual antes chegou a desdenhar. Lá estava escrito Les Éditeurs, Carrefou Ódeon, nº 4. Num belíssimo ambiente, que seduz os convidados ao lhes oferecer um escritor ideal tanto para o lazer quanto para o trabalho, degustou o melhor magret de canard de sua vida. O acompanhamento por uma garrafa de Côtedu Rhône tornou-se obrigatório.

Rejuvenescido, Jonas prometeu a si mesmo que ainda voltaria pelo menos cinco vezes a Paris e, nessas oportunidades, não deixaria de voltar ao Lipp. Aliás, num ato de justiça, reconheceu que tudo se passou mais pela sua repentina propensão em realizar uma ação temerária do que pelos dotes culinários dos anfitriões. Aliás – pensou -, o gosto do autor de “O velho e o mar” para a escolha de suas companhias femininas há que se refletir inexoravelmente na quase infalibilidade de suas opções na gastronomia. Idem quanto a Belmondo.

Palavras Chave

Literatura

Comentários

Claudia Queiroz disse:

Que leitura gostosa! Nos transporta a também viver momentos em uma bela Paris!

Carlos Roberto de Miranda Gomes disse:

É uma prosa agradável. Verdadeiro incentivo pa imitar Jonas. Beleza

Marco Barbosa disse:

Mais uma bela crônica do Nobre autor.

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