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Devolvam meu São João

Em um tempo não muito distante, neste mesmo pedaço de chão, a nordestinidade explodia quando junho chegava. Era tempo de São João!

Um tempo aquecido por fogueiras nas calçadas.

Um tempo saudado pela ruidosa alegria dos fogos.

Embalado pela autenticidade do nosso melhor forró. E engordado por tudo de bom que o milho pode oferecer.

Sei que os tempos são outros e tenho que me adaptar e aceitar.

O meio ambiente não aguenta tanta madeira ardendo para aquecer nossas frias noites de junho.

E aqueles balões de ar quente construídos pelo meu tio Zé, que animava minha infância junina, não são mais tão inocentes.

Concordo e aceito tudo isso.

Mas precisavam levar junto todo o resto?

Precisavam – como estão fazendo – decompor nosso São João?

Por que estão silenciando o forró pé de serra? O xote, o arrasta pé, o xaxado, o baião?

E nos oferecendo, em seu lugar, músicas plastificadas, que mandam nossas “matutas” descerem até o chão? Ou breganejos que não contam nada de nossa cultura nem espelham melodicamente o que somos como povo?

Isso não entendo. Nem aceito.

Se fosse adepto da teoria da conspiração, arriscaria um palpite: a ordem é, orquestradamente, ardilosamente, destruir nossa nordestinidade.

Nem alma nem corpo terão mais direito ao São João.

Porque não se encontra mais nem o milho.

No lugar da espiga assada ou cozida, da pamonha, canjica, bolo de milho, do pé de moleque e do bolo Souza Leão apareceram o arrumadinho, o churrasquinho, o caldinho, o escondidinho… Todos esses inhos que podem até ter tempero nordestino, mas certamente não têm sabor junino.

Não reproduzem, com toda a certeza, o paladar do meu São João – que já foi autêntico, em um tempo não muito distante, neste mesmo pedaço de chão.

Eu quero a volta da rifa de fogos, os bazarzinhos enfeitados com papel seda colorido que a meninada mais atilada para os negócios armava na porta de casa, vendendo peido de veia, bombas chilenas, cobrinhas, buscapés e vulcões.

Quero de volta as explosões das bombas de cordão e dos foguetões de vara, soltados pelos moleques marotos. Do traque de massa, da bicha de rodeio. Dos chuveirinhos das meninas. Das estrelinhas. Do céu iluminado pela nossa alegria de viver a festa mais nordestina.

Com nosso sotaque, com nossa música, com nosso gosto.

Esse São João que nos oferecem hoje é uma festa para todos os dias, qualquer época do calendário, em qualquer parte do mundo.

E não tem mais nenhum traço de nordestinidade.

Pelo andar dessa carruagem louca de destruição e descaracterização, daqui a pouco tempo, neste mesmo pedaço de chão, não haverá mais nada – nem música, nem comida, nem dança nem alegria – que nos faça lembrar que um dia o Nordeste foi a terra do São João.

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