Dia ensolarado
Abri a janela nas primeiras horas da manhã, dei de cara com o céu encoberto e vibrei:
– Viva, vai cair um toró!
Nem sempre vibrei com o prenúncio de chuvas, tão contumazes no 5 de maio, dia de meu aniversário.
Na infância, a torcida era inversa. O menino Roberto torcia – e muito – por um dia de sol de presente de aniversário. Passava boa parte do dia solfejando a reza ensinada pela minha mãe:
“Minha Santa Clara, mãe de Jacó, tirai a chuva e mandai o Sol”.
A santidade aparentemente não me ouvia. Pois não consigo lembrar de um única vez, nestes mais de 60 anos, em que comemorei a data sem a companhia do aguaceiro.
Muitas festinhas – cuidadosamente preparadas pela minha mãe e minha tia – foram frustradas pelo desabamento de verdadeiros dilúvios. Os convidados eram barrados por precipitações torrenciais. Em uma delas, ninguém conseguiu comparecer.
No último 5 de maio, o tempo encoberto parecia cumprir a minha sina natalícia.
Mas as nuvens que me recepcionaram pela manhã não redundaram na chuva que prometiam. E acabei ganhando um presente que o Roberto de hoje não desejava: um dia de aniversário ensolarado.
Não queria este presente porque sei o seu preço. E ele é impagável.
Ao final do meu dia, me rendi ao óbvio: o desequilíbrio ecológico está instalado e não tem mais possibilidade de reversão.
Sou um homem de estatísticas. E meteorologicamente se configura de forma inequívoca a tendência de um desarranjo ambiental que não se pode mais deter.
Ano após ano, as chuvas ficam mais escassas. E anacrônicas.
Cadê o abril de chuvas mil? Onde estão as águas que avançavam sobre maio e se prolongavam até junho e julho?
Abril seco é uma incongruência que só o desequilíbrio explica. As poucas nuvens que aparecem nos oferecem precipitações miúdas.
Se chove aqui, não molha acolá.
E esta é uma realidade enfrentada em todas as partes do planeta. Na Paraíba, a estiagem não fica mais circunscrita as regiões mais secas. E é assustador observar, impotente, a secura do Cariri se estendendo à beira-mar.
Nossos usos e abusos – cometidos ao longo do tempo, com franca e desorientada aceleração nas últimas décadas – se materializa agora nesse desastre climático de proporções globais.
Já danificamos demais.
E esta primeira pessoa do plural não faz referência tão somente a nós, os brasileiros. Esta conta, definitivamente, não é só nossa.
Sim, desmatamos. Mas ainda temos reservas naturais.
O presente que desembrulhei dia 5 de maio compartilho com a humanidade – que, em sua integralidade, desfigurou a fisionomia do mundo. E agora espreita sua face mais perversa.
Tristemente, olho para este pacote. Gostaria de poder devolvê-lo aos céus, que em sua secura nos sinaliza o desastre. E, silenciosamente, repito:
Não queria, realmente, ter ganho de presente este lindo dia de sol.