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Diretora francesa de ‘Minha Lua de Mel Polonesa’ fala sobre filme

Élise Otzenberger nasceu na França, mas as origens de sua família estão na Polônia e na Romênia, ambos países do leste europeu. A relação de raízes com a Polônia e com um passado que, não muito longe, inclui memórias traumáticas da II Guerra Mundial, é o assunto de seu primeiro filme como diretora, a comédia Minha Lua de Mel Polonesa, que estreia amanhã em João Pessoa. “Eu realmente queria que o filme falasse com pessoas como eu, que tenham origens mistas. Sejam judias e polonesas como eu, mas, na verdade, de qualquer origem. E que sintam ou não que o passado tem as chaves de algo que estão perdendo”, diz ao CORREIO.

A trama segue um casal francês em férias na Polônia. Anna é descendente de poloneses, como Élise, e deseja muito se conectar com as origens de sua família — judeus que sofreram por lá com o nazismo. A mãe, no entanto, não tem a menor nostalgia pelo país e acha tudo uma loucura sem propósito.

“Assim como Anna, tenho ouvido muitas coisas ruins sobre a Polônia desde que eu era criança”, conta. “Minha família está traumatizada pelo passado, como a dela. Mas agora, com o filme, eu consegui construir uma nova relação com a Polônia”.

O filme foi financiado na França, mas a maior parte foi rodada na Polônia. “Foi uma experiência maravilhosa. É claro que minha mãe ainda não entende isso — e provavelmente nunca vai entender, provavelmente me acharia louca se pudesse me ler agora… Tenho belas lembranças na Polônia e agora tenho bons amigos por lá”.

Voltar ao assunto do Holocausto, mesmo a bordo de uma comédia, não é uma postura desconectada de um presente em que preconceito e discriminação crescem na Europa, sob as asas do conservadorismo e do nacionalismo.

“Fico apavorada quando vejo o que está acontecendo em muitos países. Como as minorias são levadas uma contra as outras pelos políticos”, afirma. “Lembrar o que aconteceu é vital. Temos que ter consciência de como temos sorte em viver em um ambiente democrático respeitoso e como seria nossa vida se a democracia acabasse. Assim como em muitos países, na França, a extrema direita também está se levantando, tentando encontrar bodes expiatórios para tudo e precisamos estar alertas. Dividir as pessoas só pode trazer miséria. Só posso imaginar o que o Brasil está enfrentando”.

Comédia foi natural

Associar comédia com a memória da perseguição aos judeus já foi algo polêmico. Agora, parece que é encarado com maior normalidade. Mas Élise não usou a comédia como uma estratégia.

“Não era algo em que eu pensava antes de escrever. É muito natural para mim. É a maneira como tento ver o mundo e como expresso minhas emoções no meu trabalho”, explica. “Mas com certeza eu sabia que meu filme sendo uma comédia poderia trazer uma audiência que não estaria interessada em outro filme sério e deprimente”.

Ainda assim, ela espera que o filme, oriundo de uma Europa que baixou as fronteiras, mas enfrenta um movimento de quem quer voltar a erguê-las, seja uma voz a ser ouvida. “Moro em Paris, mas temos a chance de ser confrontados com muitas culturas diferentes e eu adoraria morar em outro lugar um dia. Eu amo Paris e a França, mas espero que meus filhos tenham um dia um mundo com menos fronteiras e muros. Tento todos os dias ensinar a eles tolerância e respeito”.

A diretora trabalha em uma cinematografia que conta com mulheres de importância histórica na direção de filmes — nomes como as belgas Agnes Varda e Chantal Akerman, que trabalharam a maior parte da vida na França. Ainda assim, a cadeira de diretor pareceu por muito tempo um lugar reservado — com poucas exceções — aos homens.

“Me tornar diretora foi um sonho e espero poder trabalhar nisso até ficar bem velhinha”, conta Élise, que é também atriz. “É claro que sei que, há alguns anos, fazer um filme teria sido muito mais difícil para mim como mulher. E sou grato às mulheres diretoras que tornaram isso possível para mim. Mas também acho que fazer cinema com liberdade de expressão e escolha artística ainda é uma luta para homens e mulheres”.

“Em relação ao lugar das mulheres como diretora de cinema, acho que a pergunta deve ser feita por toda a sociedade”, continua. “Mas mais ainda em lugares de poder, como no governo, ou no gerenciamento de instituições públicas ou privadas, onde isso fará a diferença para todas as meninas do futuro”.


* Renato Félix, do Jornal CORREIO.

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