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Disparidade: CEO ganha até 1.100 vezes mais que média da equipe, revela pesquisa

pesquisa considerou apenas as 83 empresas de capital aberto que integram hoje o Ibovespa, o índice das ações mais negociadas da Bolsa

A JBS é a empresa com a maior disparidade salarial entre as que compõem o Ibovespa, o principal índice da Bolsa de Valores. O maior salário da companhia é 1.100 vezes superior ao da média salarial do grupo, que soma 152,5 mil funcionários só no Brasil.

Na sequência vêm a Rede D’Or (625,9 vezes) e a Localiza (559 vezes). Essas proporções são muito superiores às da média do Ibovespa, onde a relação entre o maior salário e a média paga à equipe está em 184,5 vezes.

Os dados pertencem a um levantamento feito com exclusividade para a Folha de S.Paulo pelo consultor em governança corporativa Renato Chaves. A pesquisa considerou apenas as 83 empresas de capital aberto que integram hoje o Ibovespa, o índice das ações mais negociadas da Bolsa, que reúne as companhias mais importantes do mercado de capitais brasileiro.

Questionadas pela reportagem, a JBS, dona de marcas como Seara, Swift e Friboi, não respondeu até a publicação deste texto. A Rede D’Or, que controla uma das maiores redes de hospitais e clínicas oncológicas do país, não quis comentar. Já a locadora de veículos Localiza informou em nota que o alto valor pago ao CEO está relacionado à concessão de ações que integram o pacote de remuneração, com o objetivo de formar “uma nova geração de acionistas de referência com visão de longo prazo”.

O levantamento tomou como base as informações que constam nos formulários de referência enviados pelas próprias companhias todos os anos à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que consideram a remuneração anual.

Nesses relatórios, as empresas declaram dados financeiros, comentários dos administradores, valores mobiliários emitidos, operações com partes relacionadas, entre outras informações referentes ao exercício anterior. A obrigatoriedade de revelar a remuneração da diretoria e do conselho é relativamente recente: começou a ser atendida em 2019.

A determinação deveria estar sendo seguida desde o final de 2009, quando a CVM publicou a instrução 480, com alteração na Lei das S.A para garantir maior transparência às informações divulgadas aos acionistas.

A medida, porém, foi contestada na Justiça pelo Ibef (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças), que a considerou invasiva e, em 2010, obteve uma liminar para que as companhias não fossem obrigadas a cumpri-la.

Em agosto de 2018, oito anos após a disputa judicial, o TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª região) acatou o recurso da CVM e a divulgação da remuneração passou a ser obrigatória.

Pela legislação das companhias abertas, as empresas precisam enviar à CVM quais os três patamares de remuneração pagos à diretoria (o maior, o menor e o médio). Devem fornecer as mesmas informações em relação à remuneração do conselho. “Em geral, as empresas informam apenas a relação entre o maior salário e a média. Poucas revelam a média salarial paga à equipe”, diz Chaves, mestre em contabilidade.

Na remuneração do alto escalão, são considerados salário fixo, salário variável (bônus e participação nos lucros), plano de ações (stock options) e benefícios pagos no ano. “Em alguns casos, a empresa paga ainda o ‘pós-emprego’, uma espécie de quarentena antecipada para que o executivo não vá para a concorrência”, diz. “Não é aberto o CPF do detentor de cada salário, a legislação não exige isso”, afirma Chaves. “Mas é de praxe que, na estrutura organizacional de uma empresa, a maior remuneração seja a do líder: no caso da diretoria, é a do CEO e, no conselho, a do chairman, o presidente do conselho de administração.”

Segundo o consultor, a razão entre a maior remuneração paga pela companhia e a média que os seus colabores recebem é um importante indicador de governança corporativa. “Trata-se de um índice que mostra o quanto a empresa está preocupada com uma gestão igualitária, capaz de remunerar suas equipes de maneira justa”, diz.

DISCREPÂNCIA SINALIZA FALTA DE PREOCUPAÇÃO SOCIAL, DIZ PROFESSOR

Além de JBS, Rede D’or e Localiza, no ranking das empresas do Ibovespa com maior desigualdade salarial também estão Minerva (maior salário é 547,5 vezes superior ao da média), Vale (515 vezes), Hapvida (494,4), Carrefour (476), Suzano (471), Assaí (466) e Petz (397). Confira ao final da reportagem as justificativas das empresas. “O CEO teria que ser um verdadeiro super-homem para justificar um salário 1.100 maior que o da média da companhia”, diz o consultor, referindo-se à JBS. “Mas uma empresa não se faz pelo desempenho de um único talento. São diversas equipes juntas, que por sua vez reúnem vários talentos.”

Joaquim Rubens Fontes Filho, professor de governança da FGV Ebape (Centro de Estudos de Competitividade e Inovação da Fundação Getúlio Vargas), concorda. “É como se o resto da empresa não valesse para nada, só o CEO importa”, diz. “Pode até ser que essa remuneração absurda paga ao CEO e alguns casos ao chairman não faça diferença nos ativos da companhia, afinal, são grandes empresas”, afirma Fontes. Mas existe um risco moral embutido nessa prática, sinalizando que a empresa não se preocupa com determinadas questões sociais, com uma gestão que se paute pela equidade.”

Na opinião de Fontes, é preciso olhar com mais cuidado o que está acontecendo nessas empresas e quem é o CEO o representante de um grupo de acionistas ou o acionista principal da companhia. “Deve-se averiguar se a remuneração muito acima da média paga a um integrante do alto escalão não é uma forma de transferir receita para ele. Foi o que aconteceu com o Eike Batista, por exemplo”, diz ele, referindo-se ao fundador do grupo EBX que foi o homem mais rico do Brasil, mas cujo conglomerado entrou em falência.

A Americanas, pivô do maior escândalo contábil da história brasileira, era em 2021 uma das empresas com maior disparidade salarial: os ganhos do então principal executivo, Miguel Gutierrez, eram equivalentes a 431 vezes à média paga pela companhia à equipe. “Essa proporção deu um salto às vésperas do escândalo, no formulário de referência 2022: 740 vezes”, diz Chaves. “O movimento provavelmente está relacionado ao pagamento pela entrada de executivos e pacote de saída dos que deixaram a companhia”, diz.

Na pesquisa deste ano, que considera o formulário de referência 2023, já sob nova gestão, a relação continuou alta na Americanas: 452 vezes. “Mas a empresa não entrou no levantamento, porque já não faz mais parte do Ibovespa.”

O QUE DIZEM AS EMPRESAS

No levantamento, Renato Chaves não informa o nome dos executivos. Mas os CEOs das empresas com maior disparidade salarial são: Gilberto Tomazoni (JBS); Paulo Moll (Rede D’Or); Bruno Lasansky (Localiza); Fernando Galletti de Queiroz (Minerva); Eduardo Bartolomeo (Vale); Jorge Fontoura Pinheiro Koren de Lima (Hapvida); Stéphane Maquaire (Carrefour); Walter Schalka (Suzano); Belmiro Gomes (Assaí) e Sergio Zimerman (Petz).

No caso da Rede D’Or, porém, a Folha de S.Paulo apurou que o maior salário pertence na verdade a um dos conselheiros, que ganha mais que o chairman e o próprio CEO da companhia.

Questionadas a respeito da diferença exagerada de remuneração, o grupo varejista Carrefour, o atacadista Assaí e o frigorífico Minerva não responderam até a publicação desta reportagem. A mineradora Vale não quis comentar.

Já a Hapvida afirmou, em nota, que “a informação de que o salário do CEO é 494,4 vezes maior do que o salário médio de todo o grupo não representa a remuneração real paga à sua atividade no posto”. Segundo a maior empresa de saúde suplementar do país, “o pagamento do executivo, também acionista de referência do grupo e membro do conselho, é compatível com o mesmo oferecido pelas empresas de capital aberto do mesmo porte e complexidade.”

A Suzano, uma das maiores fabricantes de papel e celulose do país, informou que “este multiplicador é influenciado pelo perfil do nosso quadro de colaboradores, que estão predominantemente alocados em cargos operacionais, com remuneração próxima ao piso salarial da categoria”.

A varejista de produtos para animais de estimação Petz afirmou que CEO e diretoria somaram em 2023 R$ 11 milhões de salário fixo e variável de curto prazo, e que 60% da remuneração anual da diretoria é baseada em opções (R$ 17,7 milhões), com efeito “meramente contábil, sem nenhuma contrapartida de caixa aos executivos ou desembolso de recursos pela companhia.”

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