O Doutor René, meu pai, completaria cem anos neste janeiro se não tivesse partido há 25 anos, junto com minha mãe, em um acidente automobilístico.
E a saudade sempre presente me assaltou com mais força neste centenário impossível ao ligar no último final de semana para meu filho Roberto. E descobrir, surpreso, que ele estava em uma marina no Jacaré curtindo seu barco.
Robinho estava lá, no seco, inventando o que fazer na embarcação, como as crianças (mesmo as grandes) costumam fazer com seus brinquedos favoritos.
Décadas atrás, outra criança grande também dedicava seu tempo de aposentado a este mesmo ritual. Pelo menos uma tarde por semana, Dr. René rumava para o Cabanga Iate Clube de Recife, onde passava horas – mesmo no seco – mimando sua embarcação.
Apesar do tempo e da distância eterna, eles não poderiam ser mais parecidos. O neto mimetiza gestos, comportamentos e até prazeres com o avô com quem conviveu tão pouco.
De fato, Robinho era um menino quando Doutor René nos privou do privilégio da sua companhia. Como, então, podem ser tão similares?
Eis um daqueles mistérios divinos capazes de destravar a mais profunda emoção neste coração de pai e de filho saudoso. E fiquei realmente muito emocionado com aquele telefonema. Fiquei, sobretudo, sentindo um grande pesar por eles não poderem conviver. Pois sei que seriam grandes companheiros.
Fechando os olhos, quase consigo visualizar este encontro impossível: os dois, juntos na marina, tentando reparar instrumentos que não estão quebrados; polindo peças já lustradas; inventado motivos para passar momentos lúdicos no brinquedo de gente grande.
Eles certamente teriam a mágica experiência de se enxergar e se reconhecer nos olhos do outro. Como faço, em minha condição de avô, com meu neto Roberto.
Pois é, aconteceu de novo. Eu e Roberto Neto reeditamos este fenômeno misterioso de similaridades. Uma condição atestada por todos que nos conhecem e enxergam nele inúmeros traços semelhantes e coincidências de comportamento.
Diferente de Robinho e o Doutor René, vivo com meu neto este sonho possível. O que só reforça o pesar por meu pai e meu filho, desencontrados pela vida.
E anexo ao pesar sobrevem um pensamento: a gente deveria viver mais. Deveria ter um plus de pelo menos 30 por cento.
Aos cem anos, Doutor René – e seu vigor adquirido em uma vida dedicada ao remo – certamente ainda teria forças para partilhar do prazer de navegar com o neto.
Poderia, por exemplo, ter o privilégio que desfruto neste domingo de fevereiro.
Hoje, Rob Pai, Rob Filho e Rob Neto estão juntos navegando e experimentando a divina oportunidade de partilhar os prazeres que comungamos.