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O óleo da esperança

Cannabis ainda é vista com preconceito por alguns setores, mas para médicos e pacientes, já é considerada a esperança para cura ou controle de doenças, embora ainda seja um desafio.

30 de outubro de 2018

Reportagem: Mayara Oliveira
Imagens: Chico Martins e Rafael Passos

Edição e montagem: Nice Almeida

Eu sempre fui careta e contra qualquer uso da cannabis, mas tive de repensar meus conceitos e estudar quando vi alguns pacientes graves nas UTIs que melhoravam muito e voltavam à vida após receber o óleo da esperança”.

O testemunho forte sobre o efeito da cannabis na vida das pessoas que têm doenças que podem ser tratadas com a planta vem do cirurgião geral e especialista em terapia intensiva, no Estado do Maranhão, Clayton Aragão Magalhães.

O médico revela que lidar com o uso da planta conhecida popularmente por maconha (Cannabis Sativa) para fins medicinais ainda é um problema dentro da própria medicina, sendo o maior deles a falta de treinamento formal ainda na faculdade. Clayton relata ter passado por esta experiência.

“Estudei, li, conheci outros médicos. Confesso, meus primeiros pacientes prescrevi com medo e receio. Mas grata foi a surpresa com a melhora surpreendente dos pacientes. Inclusive pacientes com câncer em tratamento paliativo (sem proposta de tratamento devido doença avançada) que continuam vivos após meses usando o óleo,” explica.

Associação luta pelo cultivo da cannabis (Foto: Chico Martins)

Abrace Esperança luta pelo cultivo e uso da planta

Contudo, não se trata apenas do conflito entre os estudiosos. No Brasil, a luta pela utilização de medicamentos a base do canabidiol, ou CBD, atinge desde os que precisam dos remédios até os produtores. Como é o caso da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace Esperança), que atua na Paraíba com o cultivo da planta para tratamentos desde maio de 2017, quando houve autorização judicial para esta ação.

Os óleos e pomadas derivadas da cannabis que a Abrace desenvolve, têm apresentado resultados em pessoas com doenças como epilepsia, crises convulsivas, câncer, infecções e outras. Em setembro, a associação completou três anos com a expectativa de uma nova autorização, a de que o número de pessoas atendidas possa aumentar.

Ultrapassar o atendimento de 800 pessoas para uma meta de 10 mil não tem sido uma tarefa fácil. Já há um processo tramitando na Justiça que visa expandir o plantio da Abrace de João Pessoa para Campina Grande e consequentemente alcançar mais famílias.

Para o diretor de relações públicas da associação, Luciano Lima, a causa ainda não foi ganha por falta de apoio das autoridades e de alguns órgãos competentes, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo, que seria essencial para atuar no local da plantação.

“Quando a gente entrou com a ação para o cultivo com a Anvisa, tentaram proibir e derrubar a liminar, ano passado foi conseguido o direito de cultivar e fazer o medicamento, mas eles recolheram de novo”, relata o diretor.

A gente espera. Por enquanto esse tem sido o nosso maior desafio”.

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Plantação de cannabis em João Pessoa(Foto: Rafael Passos)

Ao Portal Correio a Anvisa declarou que, apesar de não regulamentar o plantio de cannabis em Campina Grande, o tema se encontra em discussão interna na Agência. Por outro lado, a Anvisa já providencia a importação do canabidiol. O passo a passo para conseguir o medicamento está disponível no site oficial.

Conforme a legislação brasileira, além da prescrição médica para uso dos derivados da planta, também é possível ter acesso aos medicamentos com habeas corpus para cultivo domiciliar ou em ONGs. Quanto às importações, a Anvisa destacou que já foram emitidas 6.020 autorizações, enquanto 4.255 pacientes estão cadastrados e aguardam a medicação.

Pai e filho testemunham eficácia da cannabis (Foto: Chico Martins)

Tratamento derruba preconceito

“Hoje em dia ainda tem certo preconceito, por causa do nome, quando fala em maconha o pessoal pensa que você é viciado, sendo que tiraram justamente a parte inofensiva para vicio”, constata Manoel Pedrosa, de 66 anos.

Ele se refere a parte da planta que é extraída para o oléo que o filho, Romário Júnior (25), utiliza. O canabidiol é um dos principais ativos da cannabis, contém até 40% de extratos, sendo a base para quem produz os remédios. O filho de Manoel tem epilepsia, e faz parte dos pacientes que notam mudança desde o início da medicação.

“A diferença é que deu uma controlada muito boa, se eu quiser malhar, ou caminhar, fazer alguma força, alguma coisa que eu me prejudique em cansar, já que se eu cansar muito eu passo mal”. O pai explica: “É que quando ele tem ‘desligamento’, o sono volta com força”, diz se referindo às convulsões.

Romário também esclareceu que percebe a dificuldade para o fácil acesso desses medicamentos à população. “No meu caso não deu muito trabalho. Eu passei mal na reunião da Abrace, muita gente na reunião me vendo e eu passei mal. Lembro eu entrando, sentei na cadeira, conversei com uma pessoa e só lembro eu voltando pra casa… Eu passei mal várias vezes na frente do pessoal”, contou.

Ele também abordou sobre as atividades em que a doença costumava interferir, já que, em média, o jovem sofria cerca de quatro a cinco convulsões por dia. “Eu jogava tênis e a dor vinha na área esquerda, era muito forte. Eu trabalhei com fotografia e passava mal nas igrejas, às vezes em casamentos, festas infantis… Hoje em dia controlo muito melhor o que quero e preciso fazer”, testemunhou.

Sobre o que pensa da possível expansão do plantio da cannabis na Paraíba, Romário não esconde: “Ajudar mais pessoas!”. O pai, por sua vez, declara: “Foi uma luta muito grande pra eles conseguirem chegar onde estão agora, com o produto na prateleira, com fácil acesso. Quando começou não era fácil, ‘nós’ usamos desde o ano passado, e conseguiram chegar a esse ponto, porque isso só se conseguia importando ou contrabandeando”, disse.

Após oito meses utilizando o produto, o filho de Manoel passa cerca de 15 a 20 dias sem os ‘desligamentos’. Além do canabidiol, Romário ainda toma mais dois remédios, de forma específica para o problema. Segundo eles, a luta deve permanecer. Acreditam que conquistar mais acessibilidade aos produtos não se trata de um sonho distante.

Avanços do tratamento com cannabis

O cirurgião Clayton Aragão está entre os médicos que prescrevem o óleo da cannabis e explica quais são os benefícios. “É rico em compostos conhecidos como canabinoides e terpenos. Entre os canabinoides temos os principais CBD cannabidiol e THC tetrahidrocanabinol, mas existem muitos outros. O corpo humano apresenta dois tipos de receptores para essas moléculas, receptores CB1 e CB2”, explica.

Conforme ele, ocupar esses receptores com canabinoides influencia de modo positivo a pacientes portadores de algumas doenças, como Alzheimer, de forma a obter ganho cognitivo, progressão mais lenta e proteção do neurônio, Esclerose Lateral Amiotrófica, Esclerose Múltipla, Dores Crônicas, Fibromialgia, Autismo, Parkinson, entre outras.

Segundo o médico, todas as formas de epilepsia respondem de forma positiva ao uso do cannabidiol, ele enfatizou que crianças na faixa de quatro anos com o nível mais grave da doença tendiam a morrer com mais facilidade, mas após o uso das medicações, o índice de morte diminuiu, e consequentemente os pacientes passaram a apresentar uma vida normal.

Já no câncer, há melhoras imunológica, nutricional e nas dores, diminuindo os efeitos da quimioterapia e ganho de peso. “Chega a ser desumano não prescrever cannabidiol a pacientes com câncer. Esses pacientes viveriam mais, viveriam melhor e com menos dores”, destaca.

A única forma de combater o preconceito é a informação. É impossível acompanhar e observar a melhora importante na qualidade de vida dos pacientes e não se questionar sobre o quanto a sociedade perde com a política atual sobre derivados da cannabis. Ver a vida voltando a um paciente desenganado é incrível”. Clayton Aragão – cirurgião.

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Clayton Aragão, cirurgião(Foto: Arquivo pessoal)
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