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Reportagem e fotografias: Alexandre Freire e Luís Eduardo
Vídeos: Luís Eduardo
Montagem e Infografia: Vinícius Miron

As histórias de Edilza Maria Bento e José Padilha podiam se confundir com a de tantos outros moradores da pequena cidade de Baía da Traição, no Litoral Norte paraibano, mas foi graças à educação que eles começaram a escrever um novo capítulo em suas vidas e hoje pertencem ao seleto grupo dos quase 2% que possuem ensino superior completo no município. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente a Baía da Traição possui aproximadamente 9,07 mil habitantes e é, ao lado das cidades de Rio Tinto e Marcação, um dos refúgios para 33 comunidades indígenas do estado.

Mas para entender a realidade dos nossos dois personagens, é preciso compreender o cenário em que eles vivem. Em uma cidade onde 70% da população se declara indígena, nem sempre as condições são favoráveis para quem deseja se qualificar.

Baía da Traição – PB

5000
Habitantes
0 ,6 %
Ruas com saneamento básico
0 ,7 %
Urbanização de vias
0, 0
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
0 .526,40
Salário médio da população

José Padilha, 22 anos

À primeira vista pode parecer um jovem brasileiro como outro qualquer. Tem sonhos que deseja realizar, enfrenta dificuldades cotidianamente, mas hoje pode colher frutos do esforço e da dedicação. Aos 22 anos, Padilha é professor de Português e diretor da escola indígena da aldeia Akajutibiró, de etnia Potiguara. O nome de sua origem não poderia ser mais compatível com sua jornada. Akajutibiró significa “caju azedo”, na língua Tupi-Guarani. Isso porque esse foi o gosto da jornada do jovem para conseguir terminar seu curso superior, para hoje poder experimentar o doce sabor de poder contribuir com a formação de crianças e adolescentes com os mesmos sonhos que ele.

José Padilha com os alunos (Foto: Alexandre Freire)

Início da jornada

Aos 12 anos de idade, Padilha precisou deixar a cidade da Baía da Traição justamente para ir atrás do sonho de se capacitar. “Fiz o ensino médio em João Pessoa porque o ensino era melhor. Sempre gostei de artes cênicas, de televisão e sempre tive o sonho de ser um comunicador. Por isso, em 2014 eu ingressei no curso de Jornalismo em uma faculdade particular”.

José Padilha na escola (Foto: Luís Eduardo)

Caju azedo

Porém, se engana quem pensa que a vida do jovem índio sempre foi doce. O azedo das longas jornadas sempre esteve presente nos seus quatro anos de graduação. “Foi uma luta porque eu havia voltado para a Baía da Traição e ia todos os dias para aula em João Pessoa. Eu pegava o ônibus de 16h, chegava na aula de 18h30 e de 22h pegava o ônibus de volta. Só ia chegar em casa de meia noite. Isso quando o ônibus não quebrava (risos)”. Hoje, Padilha consegue rir da situação, porém, na época, as dificuldades quase o fizeram desistir do sonho. “Já chegamos a fazer cotinha para bancar o combustível do ônibus, porque havia acabado. Também juntamos dinheiro para pagar o jantar do motorista, que não era dado”, relata.

“Sem dúvida, me formar foi uma das coisas mais incríveis da minha vida. Aprendi muitas coisas fantásticas, em especial com o jornalismo humanizado, que me ajuda no setor da educação. Esse olhar diferenciado sem distinção sobre as pessoas”.

Financiamento estudantil

Ter a oportunidade de mudar a realidade do povo indígena é o que motiva o jovem jornalista. Porém, ele destaca que o esforço dos profissionais da educação não é suficiente para fazer os alunos chegarem até uma universidade. “Eu agradeço muito ao Governo Federal porque eu entrei na faculdade graças ao Financiamento Estudantil (Fies), e foi uma grande oportunidade. Muitas pessoas não têm condições de bancar um curso superior. A educação deveria ser gratuita para todos. Mas como não é possível, a gente fica feliz por esse apoio. Sem isso, não teria chegado onde cheguei”, revela.

Por fim, Padilha relata a principal motivação para seguir com a missão de dar esperança ao povo indígena. “O que me motiva é a humildade e vontade que eu vejo em muitas crianças e adolescentes. Porque existe todo um contexto. Não é só a educação. Muitas crianças não têm pai, nem mãe, e nós damos esse suporte também. Então é esse conjunto de motivações que me faz prosseguir”, finaliza emocionado.

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(Foto: Luís Eduardo)

José Padilha inspirando alunos (Foto: Alexandre Freire)

Edilza Maria Bento, 54 anos

De origem simples e com poucos recursos, Edilza não possuía nenhum ‘doutor’ em sua família. Pelo contrário, os pais agricultores pouco tinham frequentado as salas de aula. A vida para a pequena indígena era uma dura realidade, que impunha todos os dias um novo desafio: o da sobrevivência. Tinha dia, por exemplo, que faltava o que comer à família Bento.

Essa história começou a mudar, quando Edilza viu despertar, ainda muito cedo, o gosto pelos estudos. A vontade de estudar e o interesse pelo conhecimento fizeram Edilza começar a trabalhar ainda criança, aos 11 anos de idade. “Até os 22 anos, eu trabalhava em troca de uma roupa no São João e no Ano Novo, para ter uma casa e o alimento e poder estudar”, lembrou.

Mal sabia ela que seria através dos livros – o passatempo preferido – que conseguiria superar todos os prognósticos que a vida tinha para oferecer.

“Quando criança eu saía para brincar na rua por trás de casa, meus colegas procuravam brinquedos e eu procurava livros. Eu não podia ver um papel, que deixava qualquer brincadeira para ler aquele papel. Sempre acreditei no estudo, como pobre que nasci nessa cidade há 54 anos, a gente não podia nem comprar comida, que às vezes não tinha, então filha de agricultores, eu via a esperança no estudo”.

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(Foto: Alexandre Freire)

Se para Edilza aprender a ler e escrever já era um grande desafio, imagine, terminar o 2º grau e entrar em uma universidade. E assim aconteceu: Em 1996, cursou Letras no campus da Universidade Estadual da Paraíba, na cidade de Guarabira, a quase 80 quilômetros de sua residência. A falta de estrutura fazia com que essa distância se tornasse ainda muito maior. Todos os dias, Edilza pegava uma carona para chegar até a universidade, onde estudava à noite. Dormia na cidade e no outro dia, voltava cedo para trabalhar na Baía da Traição para de tarde, retornar novamente para Guarabira. E assim foi sua batalha durante  quatro longos anos.

Após a conclusão do curso, Edilza chegou a lecionar em sua cidade, mas sentia que faltava algo em sua vida: ser advogada.

O recomeço

Voltar à sala de aula depois de quase 10 anos não foi nada fácil, mas o sonho de cursar Direito e poder ajudar sua comunidade na busca por justiça falou mais alto. Depois de cinco vestibulares, Edilza enfim conseguiu a tão sonhada aprovação. Começava ali mais uma jornada.

Para se manter no curso, Edilza teve que se superar mais uma vez. Como estudava em uma instituição particular, pagar as mensalidades não era uma tarefa nada fácil. O pouco que ganhava era praticamente todo gasto com as despesas da faculdade. Quando a situação começou a apertar, Edilza se viu obrigada a se desfazer dos poucos bens que possuía para pagar as mensalidades. Mas, pouco tempo depois, sem dinheiro e sem condições de manter o curso, Edilza viu de perto a possibilidade de seu grande sonho ruir. Foi aí que a solidariedade dos colegas de sala e, posteriormente, uma bolsa da faculdade, fizeram toda a diferença.

“Teve um dia que pensei em desistir. Chegou a faltar dinheiro para pagar a faculdade e aí recebi ajuda de verdadeiros anjos em minha vida. Amigos de sala se juntaram e pagaram minha mensalidade para eu não desistir. Depois recebi um apoio da faculdade, que me conseguiu uma bolsa”, lembrou.

Entrevista com Edilza Maria Bento (Foto: Alexandre Freire)

Enfim, doutora Edilza

Depois de cinco anos de graduação, ainda faltava o tão temido Exame de Ordem  – pré-requisito obrigatório para o bacharel em Direito poder atuar como advogado. Em 2012, depois de algumas tentativas, realizava o maior sonho de ser advogada.

“Muitos da minha geração se acomodaram. Não tiveram a coragem de sofrer como eu sofri para estudar e hoje eles não têm uma vida melhor. Mas valeu a pena, faria tudo de novo, pois hoje, graças a Deus, posso dizer sem vaidade alguma que sou Drª Edilza Maria Bento”, arrematou.

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(Foto: Alexandre Freire)

O caminho da educação

As histórias de Edilza e Padilha só reforçam a importância da educação. No país das desigualdades e da falta de oportunidades para quem cresce em situações desfavoráveis, a educação é o caminho mais certo para vencer. Na dificuldade, muitos caminhos são oferecidos: a criminalidade, a desesperança e a pobreza. Porém, existe uma outra via. O percurso da educação tem dificuldades, requer esforço e dedicação, mas essa estrada chega até onde nenhuma outra pode chegar: ao sucesso.

“Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”

Paulo Freire

(Foto: Alexandre Freire)

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