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Os desafios do próximo governador da Paraíba

1º de outubro de 2018

Reportagem: Alexandre Freire, Amanda Gabriel, Isis Vilarim, Luís Eduardo Andrade

Edição e montagem: Nice Almeida

A poucos dias das eleições, o embate entre os candidatos se acirra, os eleitores ficam mais ansiosos e expressam suas visões nas redes sociais se posicionando em quem deverão votar e o porquê de escolher determinado candidato. Mas o que pouco tem se falado é nos desafios que o novo governador da Paraíba deverá encontrar. Quais as principais barreiras esse novo administrador terá que derrubar para conseguir chegar ao fim de sua gestão e poder afirmar com todas as letras que fez um bom mandato? O Portal Correio levantou alguns temas importantes para responder a essa pergunta e conversou com especialistas para que eles analisassem o cenário que deve ser configurado a partir de 2019, quando o estado terá um novo nome no Palácio da Redenção.

2,95 milhões de paraibanos vivem na zona urbana

1,4 milhão está sendo abastecido de água por um manancial insuficiente

380 mil habitantes dispõem de sistemas de abastecimento que requerem ampliação

(Fonte: Agência Nacional de Águas)

Açude de Boqueirão (Foto: Antonio Ronaldo)

RECURSOS HÍDRICOS

Em relação aos recursos hídricos, os dois maiores problemas que o novo governador da Paraíba vai enfrentar estão relacionados tanto à insuficiência de infraestrutura quanto a quase absoluta falta de gestão e o quase completo vazio de ações previstas em lei que promovem o uso racional da água. É o que prevê Francisco Sarmento, mestre em Recursos Hídricos e professor da Universidade Federal da Paraíba.

“Ao longo da história recente, governos pautaram como prioridade a problemática da água no nosso estado, mas a descontinuidade de esforços nessa mesma direção produziram um passivo que se agiganta e proporcionalmente aumenta o desafio a ser enfrentado pelos próximos governantes”, opinou.

Foto – Rafael Passos/Jornal Correio da Paraíba
Francisco Sarmento, mestre em recursos hídricos(Foto: Rafael Passos)

A arrecadação própria do Estado gira em torno dos R$ 400 milhões mensais.

 

Mas se existisse um ambiente harmônico entre governo e servidores esses números poderiam ser maiores”. Manoel Isidro.

Foto: Marcos Santos (USP Imagens)

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Manoel Isidro, presidente do Sindifisco(Foto: Nalva Figueiredo)

ARRECADAÇÃO

O próximo governante terá a missão de gerenciar um orçamento que beira os R$ 11 bilhões. Pelo menos, esse é o montante previsto pelo Governo do Estado na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2019, que foi encaminhada para a Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB). Em se tratando de arrecadação própria, a Paraíba conseguiu aumentar em 109% os recursos captados nos últimos oito anos. O levantamento é do Sindicato dos Integrantes do Grupo Ocupacional Servidores Fiscais Tributários do Estado da Paraíba (Sindifisco-PB).

De acordo com o presidente do Sindifisco, Manoel Isidro, um dos maiores desafios do próximo governador, no entanto, é promover uma pacificação com o funcionalismo estadual. Para ele, o atual governo estabelece uma relação de enfrentamento com os servidores. “O governador, independente de quem seja, tem que entender que as políticas públicas só são concretizadas, só chegam ao cidadão, através do servidor, por isso deve haver essa parceria e um tratamento digno à categoria”, observou.

Questionado se o número de fiscais em atuação é suficiente para atender a demanda, Manoel Isidro disse que não há déficit, o que precisa haver é uma melhor distribuição dos profissionais para atender de forma equânime todas as regiões do estado. “O governo tem que sentar e dialogar com a categoria para encontrar soluções e reorganizar a Secretaria da Receita, pois o que verificamos é local onde não tem fiscal e outros com excesso”, pontuou.

A segurança nunca foi prioridade em nenhum âmbito. É um grito da sociedade e deveria ser priorizada. A quantidade de policiais é até boa, mas a distribuição é incoerente. Locais com mais criminalidade têm menos policiais”. Deusimar Guedes.

Treinamento do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil (Foto: Arquivo)

SEGURANÇA PÚBLICA

Uma das principais qualidades que um bom gestor necessita ter é a capacidade de conciliar. Seja as pessoas que pensam diferente, seja os interesses alheios ou até mesmo a atuação dos seus subordinados. E quando o assunto é segurança pública, esta qualidade precisará ser indispensável para o novo governador da Paraíba. O desafio vai ser integrar as polícias e enfrentar uma criminalidade complexa e organizada que vem sitiando a Paraíba, com uma média de quase 34 homicídios para cada 100 mil habitantes, e mais de 100 bancos e agências dos Correios assaltadas em apenas seis meses.

Para Deusimar Guedes, que foi presidente da Comissão de Políticas de Segurança Pública da Ordem dos Advogados da Paraíba (OAB-PB), uma das soluções para reduzir os altos índices de violência seria justamente a conciliação entre as polícias e o poder público, que segundo ele, andam desconfiados entre si. “Precisaria de uma maior integração. Não só entre as polícias, mas com o poder público, com o Ministério Público e o poder judiciário. Porque cada um fica dentro da sua ilha e com suas desconfianças recíprocas”, revela.

Guedes ainda aponta a receita para o sucesso. “Por que a ‘Lava Jato’ vem dando certo? Porque tem uma integração entre MPF, Polícia Federal e Justiça. Na hora que abaixarem as bandeiras ideológicas e trabalharem juntos, certamente vai ter mais sucesso”, finaliza.

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Deusimar Guedes, especialista(Foto: Arquivo)
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Explosões
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Arrombamentos
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Assaltos
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Tentativa

NOVO CANGAÇO

De acordo com dados do Sindicato dos Bancários, em 2017, 81 bancos foram alvos de criminosos na Paraíba. Em 2018, já são 52 casos de crimes contra bancos, envolvendo explosões, arrombamentos, tentativas, assaltos e saidinhas.

Em todos os casos, o roteiro é o mesmo: bandidos fortemente armados chegam em cidades de interior, que sofrem com a precariedade das polícias, assaltam os bancos e fogem levando consigo o dinheiro e a impunidade.

As ações também causam problemas a médio e longo prazo. Muitas agências bancárias e dos Correios não estão mais reabrindo as unidades explodidas, o que força os moradores de determinados municípios a irem tirar dinheiro em outras cidades. Neste êxodo, acabam movimentando as economias de cidades maiores, enquanto os municípios que estão sem agências, sofrem com o comércio fraco.

Agência da Caixa Econômica explodida em João Pessoa (Foto: Nalva Figueiredo)

Para o presidente do Sindicato dos Bancários, Marcelo Alves, a integração também pode ser uma saída. “Nós atribuímos também a uma falta de investimento por parte dos bancos, que não investem em segurança preventiva. Não é uma questão específica da Paraíba. Mas é importante que as polícias em parceria com as segurança privadas antecipem estas ações, com intuito de coibir, com apoio dos serviços de inteligência”, disse.

Marcelo ainda indicou maneiras de coibir a ação dos bandidos. “Existem dispositivos de segurança de tingimento de cédulas, de dilaceramento de cédulas, que podem inibir estes grupos. E publicizar estas ações”, complementa.

Sofre o comércio e sofre o povo

Muitos comerciantes também sofrem com a falta de segurança nas ruas. Se o crime aumenta, o lucro diminui. “O prejuízo é grande, a gente não tem mais segurança nas ruas e isso prejudica o comércio. Temos que dividir o lucro com os bandidos”, desabafa o empresário João Ferreira Góes, que teve sua gráfica assaltada três vezes em seis meses.

Em face disso, fica evidente que o novo governador da Paraíba vai precisar enfrentar um grande desafio em sua gestão: conciliar e integrar as polícias com o poder público, a fim de devolver a tranquilidade do povo paraibano.

Linha de produção da Alpargatas (Foto: chico Martins)

NOVOS IMPLEMENTOS PARA A INDÚSTRIA LOCAL

Algumas situações precisam ser implementadas para que o estado não enfrente problemas nos próximos quatro anos, com relação à situação industrial, conforme o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (Fiep), Buega Gadelha. “O que entendemos é que o novo governo deverá realizar uma reforma tributária em que o imposto seja cobrado no destino. Então o governo deve investir mais em micro e médias empresas para ter a capacidade de incentivar de maneira mais firme, até como cotista e acionista dessas empresas”

Ainda de acordo com o Buega, deve-se esperar um processo mais elaborado, onde haja mais capacidade financeira para governar a indústria e criar um ambiente melhor para novas instalações.  Ele enfatizou que é preciso ter arranjos produtivos locais e se ter um cuidado voltado para a região do Curimataú, que deverá ficar com maior dificuldade de água, visando, dessa forma, apresentar uma solução adequada para a situação, como também para as empresas de consultorias e planejamento.

“Gostaríamos que o novo governador fizesse uma área no encontro dos mares do sul, nós podemos fazer uma coisa bem melhor nessa região, podemos fazer estacionamento, é necessário que sejam organizadas áreas que não tem as ruas asfaltadas e isso é fundamental para que tenhamos uma região para turistas”.

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Buega Gadelha, presidente da Fiep(Foto: Assuero Lima)

 Nós temos que trabalhar em conjunto com o governo, a sociedade civil organizada, empresas como um todo e setor financeiro para facilitar crédito, para que micro pequenas empresas se desenvolvam. Quando acontece desenvolvimento dos nativos, os recursos ficam todos aqui. Nada contra quem veio de fora. É bom porque eles colaboram e geram empregos. Nós precisamos dos empregos dessas grandes empresas, só que elas têm uma dificuldade grande de vir para cá, a Coteminas e Alpargatas foram sorte. Tem que haver incentivo local”. Buega Gadelha, presidente da Fiep.

Para atrair novos investimentos é necessário que o próximo governo promova uma redução da carga tributária, com segurança jurídica e compromisso fiscal”. Marconi Medeiros, presidente da Fecomércio.

COMÉRCIO E GERAÇÃO DE EMPREGOS

Para impulsionar o comércio e gerar mais postos de trabalho, entidades avaliam que as mudanças devem começar pela taxação de tributos. Esse também é o caminho apontado pelo presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campina Grande, Carlos Botelho. “Dar atrativos para que as empresas se sintam a vontade para investir na Paraíba gera empregabilidade. Vejo que há uma retração nesses incentivos. A Paraíba, logisticamente, tem bastante potencial de atrair empreendedores de outras regiões do Brasil e até mesmo do exterior. O estado está muito bem posicionado e tem profissionais capacitados, mas precisamos de incentivos. Atualmente, a taxação tributária é pesada, os custos para se trazer uma empresa são bem elevados”, analisa.

Carlos Botelho acrescenta que, além dos incentivos fiscais, é necessário que o Estado garante segurança ao comércio. Nos últimos meses, várias lojas foram atacadas pela gangue da marcha à ré, que utiliza carros – muitas vezes frutos de roubos – para arrombar estabelecimentos e furtar produtos do estoque. As ações costumam acontecer durante as madrugadas e tem como alvo principalmente cidades do interior da Paraíba.

Mas a insegurança também afeta o comércio na Capital. O presidente da CDL em João Pessoa, Nivaldo Lira, lembra que a segurança é uma demanda crucial para o setor. “O futuro governante precisa pensar nisso. O problema é tamanho que ninguém suporta mais. No Centro de João Pessoa, por exemplo, tem lojista que está fechando suas lojas mais cedo, às 17h ou 17h30, por conta do medo, porque não há segurança. E outras fecharam as portas de vez também devido aos casos de violência“, diz.

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