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Esperteza

“O mundo é dos espertos”. Lamentavelmente, a máxima popular se traveste de uma verdade pragmaticamente comprovada.

O mundo e muito do que nele contém – dinheiro, sucesso, acesso aos mais refinados padrões de vida – pertencem às pessoas que usam a esperteza para chegar onde o intelecto, a cultura e os bons valores deveriam estar.
E esse é um fenômeno que merece, de fato, o nosso lamento.

É realmente muito frustrante assistir a vitória do esperto em detrimento do inteligente e do culto – gente que investiu em formação, é extremamente bem preparada, mas acaba perdendo espaço por não ter a maleabilidade, o jogo de cintura e o senso de oportunidade (ou oportunismo?) que recheiam a alma dos astutos.

E este recheio parece ser determinante nos dias atuais. Pois temos visto, aos quatro cantos, um bando de despreparados – mas muito espertos – onipresentes na cena econômica, política e social.

É realmente uma pena assistir o escrupuloso, honesto, que se preparou intelectualmente, ficar no meio do caminho, à margem do sucesso (material) por não ter a dosagem da esperteza.

Mais do que injusto, a dianteira dos espertos embute danos extremos. Pois ao capitanear o sucesso, o poder e o dinheiro, acabam por contaminar toda a sociedade com seus valores – que, não raro, são distorcidos.

Os valores dos intelectuais são muito distintos. Eles não estão antenados na coisa alheia, não têm inclinação para a inveja nem para a puxada de tapete.

Não jogam o vale tudo que move, sem pausa, a vida dos sagazes. Não sem razão, o dicionário relaciona, como sinônimo, a esperteza e a velhacaria.

Mas será que se dar bem o tempo todo importa tanto assim? Traz felicidade?
A resposta é não. E é por isso que existe uma distância grande entre o esperto e o inteligente; entre os despreparados e os intelectuais.

Claro que existem inteligentes espertos. E também espertos inteligentes. Mas esta não é, infelizmente, a regra.

A maioria dos que conheço têm olhos de lince para enxergar onde está o dinheiro e as oportunidades, mas são burros, incapazes de compreender as sutilezas, ler entrelinhas, contextualizar suas ideias.

Aliás, o que vejo é que existe uma infeliz aritmética dosando inteligência/cultura e esperteza: quando menos inteligente/culta a pessoa é, mais ela usa o recurso da esperteza para se dar bem.

E de fato se dão boníssimo.

Mas, se servir de consolo, as conquistas materiais dos muito espertos – daqueles que vivem na busca constante por imitar os outros – acabam por condená-los a infelicidade.

E é por isso que, à despeito de todo o sucesso que amealham, conservo o entendimento de que a esperteza nunca deixará de ser uma pobre substituta da inteligência e da cultura.

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