Neste agosto cheio de desgosto, que já levou tragicamente Eduardo Campos, convivo com a ameaça – cada dia mais iminente – de perder um amigo de infância que vem sucumbindo a uma batalha de dez anos contra o câncer.
Ele começou a semana passada em uma Unidade de Terapia Intensiva, a espera da tal Caetana, alcunha impressa pelo grande Ariano Suassuna, outra vítima recente “desse mal irreparável”.
E foi neste compasso de angustiante expectativa que ouvi meu telefone tocar no amanhecer do último domingo. No identificador, a agenda reconhecia o número do meu amigo que, estando na UTI, não poderia estar do outro lado da linha.
Senti o corpo gelar. Me preparei para o pior. E fui surpreendido por um grito de vibrante alegria. O tom era de um guerreiro travando a maior de todas as batalhas.
– Roberto, estou vivo!
Nenhuma noticia poderia ser tão boa. Contra todas as expectativas, ele conseguiu sair da UTI. E queria dividir comigo mais este round vencido.
Verdade que a doença continua lá, com todas as chances de vencer a guerra. E ele sabe disso. Mas comemora mais um instante – com uma vibração e uma alegria que só ocorre, nesta intensidade, quando se tem convicção de que a vida é muito breve.
Tão breve que dois dias depois, mais uma vez, ele me chamou pelo telefone. E fez um pedido irrecusável:
– Sei que estou indo, mas quero ver meu amigo de infância antes de partir.
Confesso que poucas vezes empreendi missão tão dura quanto me despedir, em caráter irrevogável, de um amigo.
Mas cumpri. Fui e abracei meu amigo – muito provavelmente – pela última vez.
Sai carregado de tristeza.
Realmente machuca (e machuca muito) a consciência da proximidade da morte. Mas talvez seja neste momento que fica mais claro – cristalina – a necessidade de valoração da vida.
É preciso dar vida à vida.
E é possível fazer isso de muitas maneiras. Eu tenho minha própria receita:
Saborear cada instante.
Entender o tamanho real de cada problema, de cada conflito, de cada frustração – relegando as miudezas para os planos mais inferiores de importância.
Estar próximo dos que amo.
Fazer o que gosto (mesmo que isso implique em fugir da dieta para devorar uma guloseima. Ou suspender toda a agenda para desfrutar do prazer de ir pro mar navegar).
Enfrentar com sabedoria as dores e dissabores, extraindo suas duras lições.
Fazer do presente uma sublime obsessão.
Não me deixar iludir com a falsa impressão de vida, onde só existe – na realidade – o pulsar do coração e do relógio, exigindo atenções e energias. Pois sei que isso não é viver. É só passar pela vida, como nos lembrou o poeta:
“Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.” (Francisco Otaviano)
Insisto: dê vida à sua vida.
E tudo o mais valerá, no final, muito a pena.