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Fa?a amor n?o fa?a guerra

quem sabia dessa história já não está mais aqui (meu pai René, minha mãe Beatriz, minha irmã Celina). E acho que foi para que este capítulo da minha vida – o primeiro, para ser exato – não se perca, que hoje rebobino meu tempo.

Vamos voltar a 1945. Mais exatamente ao dia 15 de agosto.

Era uma quarta-feira quando milhões de pessoas comemoraram a rendição do Japão – o último ato militar da Segunda Guerra Mundial.

O casal René e Beatriz também se alegrou. E tinha bons motivos para isso: meu pai, oficial da reserva, estava na iminência de embarcar para reforçar as tropas aliadas.

A rendição japonesa – a Alemanha de Hitler já havia se rendido um ano antes – foi o ponto final de uma guerra que provocou milhões de mortos e feridos, destruição de cidades inteiras e dívidas incalculáveis.

Naquela noite, no bairro do Derby, em Recife, René e Beatriz terminaram aquele 15 de agosto tão festivo fazendo amor e não a guerra – exatamente como fizeram (imagino) tantos outros casais espalhados pelos países aliados, verdadeiros precursores do slogan que se popularizaria nas décadas de 60/70 com Lennon e Yoko Ono.

Eu nasci nove meses depois, em 5 de maio de 46 – um verdadeiro filho do pós-guerra, resultado da comemoração.

Certamente também foi desse modo festivo que o casal formado pelo oficial da Aeronáutica Saliture e sua esposa Helena terminaram aquele dia.

Nove meses depois, nascia seu filho Abraão Saliture Neto – na mesma maternidade que eu. Somos amigos até hoje (a mais longa amizade de minha vida).

Não sei se os pais de Abraão planejaram seu nascimento. Lá em casa, porém, minha vinda foi uma falha da tabela – o único método contraceptivo da época.

Celina, minha irmã, já tinha sete anos e o casal não pensava em ter mais filhos. Sou, de fato, um rescaldo comemorativo do fim da guerra.

E era tão traquinas que, em tom de brincadeira, meus pais diziam que a bomba de Hiroshima tinha inoculado meus genes.

Eu me envaidecia. E orgulhoso me apresentava como Roberto Ribeiro Bomba (só vim a adotar o Cavalcanti na Paraíba).

Não tenho parte com a bomba, mas sem dúvida sou grato à falha da tabela. Em meio a tanta alegria, quem iria lembrar de período fértil?

Imagino que o contentamento deles tenha sido diretamente proporcional as angústias e sofrimentos que a guerra causou ao longo daqueles seis anos.

E mesmo que me esforce, sei que eu ou qualquer dos meus contemporâneos jamais conseguiremos mensurar o tamanho do alívio que eles experimentaram naquele 15 de agosto.

Aliás, a geração do pós-guerra nunca, em tempo algum, vivenciou tamanha tensão.

Nossas crises econômicas – e mesmo os espectros das recessões – não são termômetros para a aflição de ver um filho ou marido embarcando rumo a um conflito militar – de onde, quando voltam, geralmente vêm em caixões, em cadeiras de rodas ou com corações e mentes torturados.

Não sem razão, a virada dessa página mereceu tantas comemorações. E daquelas que rendem frutos (bons, eu avalio).

No mínimo, um fruto longevo. Pois cá estou, quase setenta anos depois, contando está história.

Personagem, real, do faça amor não faça a guerra.

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