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Factoide

Todos os compêndios do marketing político dedicam atenção a uma estratégia essencial: desviar o foco.

É uma espécie de bê-a -bá do ofício. Tão presente na literatura da profissão quanto os Salmos nos livros bíblicos.

A meta é nos fazer olhar na direção contrária ao problema real. Torcer nossa visão. Desviar nossa atenção.

E geralmente têm sucesso.

O arsenal estratégico é amplo. Pode-se lançar mão de grandes eventos (Olimpíadas, Copa Mundial de Futebol) para que as pessoas olhem menos para as páginas de economia e mais para as de esportes.

Ou ainda criar um fato com potencial de mobilização social – uma obra faraônica; uma comoção. E tudo o mais que couber no espírito criativo do marketing.

Incluindo os factoides, forjados no sensacionalismo tão somente para atrair a atenção.

Nações em crise, por exemplo, costumam criar inimigos externos. Inventam uma guerra com o vizinho para que a população esqueça da dor de barriga doméstica.

Só tenha a certeza: não é – nunca é – mera coincidência (vide película americana estrelada em 97 por Dustin Hoffman e Robert De Niro).

No filme (Wag the dog, na versão americana) eles lançam mão dos recursos de Hollywood para criar uma contenda internacional e livrar o presidente dos Estados Unidos de um escândalo sexual. Algo nos moldes Clinton/Mônica Lewinsky.

Está tudo lá: a mobilização da mídia; o apelo social; os truques de mestre. Quem tiver dúvida, sugiro assistir. Ou então consultar Lena Guimarães, que é minha estrategista máxima.

No Brasil de 2016, não existe coincidência – pode apostar – na guerra que os governos (Federal e estaduais) declararam contra o Aedes Aegypti.

O mosquito ocupa as principais manchetes. Tem presença garantida nos discursos presidenciais. E é mantido na pauta de todos os entes federativos.

O Aedes praticamente fecha o círculo do desvio: provoca medo e, ao mesmo tempo, desafia o espírito cívico quando se ouve, da própria presidenta, que um inseto não pode vencer uma nação.

Isto não significa – e aqui faço parêntese de ponderação – que a epidemia de dengue, chikungunya e zika – a última associada à microcefalia – não seja fato grave.

É. E dos sérios.

Mas não é verdade que o Aedes Aegypti – presente na cena brasileira modestamente saneada desde os tempos de Oswaldo Cruz – seja o fato mais grave em curso no País.

O buraco brasileiro é muito mais embaixo – em profundidades que nem o Aegypti ousaria sobrevoar.

Nesse fosso está a crise política.

E todos os insetos que infectam a nação.

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