Moeda: Clima: Marés:
Início Geral

Gaivotas de campanha

As águias sobrevoam a seara político-eleitoral. Mas não estão sozinhas.

Em meio à rapinagem quase generalizada, voam mansamente – quase poeticamente – as gaivotas.

Depois de debulhar a voracidade da rapina, em artigo publicado domingo passado (“Águias de Campanha”), disponível também no Portal Correio, meu senso de justiça me obriga trazer a alegoria oposta em admissão de que – sim – ainda há vocacionados, bem intencionados e puros de intenções nas hostes políticas.

Não são velozes. Não têm bicos nem garras afiados para caçar o poder. Mas a despeito das fragilidades, elas sobrevivem. Ainda acreditando que longe é um lugar que não existe (vide Fernão Capelo) e que é fácil ser votado.

Uma crença que não resiste – claro – a abertura das urnas. Quando descobrem que foram traídas desde o princípio. E que nem os próprios parentes apostaram em seu sonho.

De fato, elas quase nunca vencem. Mas não se convencem de que não há espaço para aves mansas neste horizonte onde – se preciso for – entra em cena até a automutilação.

E lá se vão, eleição pós eleição, novos bandos de gaivotas enveredando por esta competição inglória. São motivadas por diversos motivos – e nenhum deles é meramente pelo poder.

Algumas vezes, por exemplo, são levadas pela tradição familiar, que as escalam para serem os representantes da vez. São integrantes de castas que acham que têm sempre que estar na cena política, mesmo que há muito tempo tenham deixado de mordiscar o poder. E que, lamentavelmente, acabam sufocando seus reais talentos em nome dessa tradição.

As gaivotas também decolam nas disputas eleitorais pelo desejo de fazer política – um sentimento que brota ainda nos grêmios estudantis e que nem o pragmatismo da maturidade conseguiu afugentar. São as que fazem política pela política.

Tem também aquelas que já nasceram neste ninho, em algum momento experimentaram os gostos e desgostos de operar a política e que dela não conseguem mais se desprender. Foram mordiscados por moscas azuis e de todas as demais matizes.

Não são oportunistas. São vítimas desse querer. E alvos fáceis para seus predadores.

Resultado?

Ao contrário do ícone falconiforme,não saem ricas das eleições. E sim endividadas. Pois não raro consomem seus patrimônios nessa aventura. E se fragilizam financeiramente.

Mas continuam a voar nesta direção, como uma rota instintiva obrigatória. Muito possivelmente por acreditar que a distância do poder realmente não existe.

As águias, porém, sabem que as gaivotas estão enganadas.

Da minha perspectiva de eleitor, penso que deveria haver um equilíbrio entre estes dois extremos – encontrando a dosimetria exata entre ser forte e astuta como a águia e preservar o ludismo e a ternura da gaivota.

Pois é preciso ter força e astúcia para gerir o destino de tantos. Mas também é preciso ser terno e sensível para não desprezar as carências dos que governam.

Um homem, há algum tempo, resumiu com maestria essa dosagem. Ele disse:“hay que endurecerese, pero sin perde la ternura jamás”.

E quem ousaria discordar dele?

Palavras Chave

Portal Correio
publicidade
© Copyright 2026. Portal Correio. Todos os direitos reservados.