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Generalizou

Tenho por hábito puxar conversa com todo mundo – todos mesmo: homens, mulheres, crianças, de todos os níveis sociais. Essa é a minha natureza. E ela me rende frutos – é, certamente, a razão pela qual tenho uma legião de bons amigos.

Semana passada, ao me dirigir à garagem de meu prédio, encontrei um deles. Ele é funcionário da limpeza do condomínio. Ao me aproximar, automaticamente o cumprimentei e perguntei sobre sua família.

Quem me conhece sabe que não costumo ficar no bom dia ou boa tarde. E, com a intimidade e camaradagem que desenvolvemos ao longo de todo o tempo em que convivemos, me sinto a vontade para ultrapassar as formalidades. Quis saber como estava.

Ele, que costuma ser otimista, me surpreendeu com a resposta.

– Não estou nada bem não.

– Está enfrentando algum problema? Algum parente doente?

Ele singelamente tirou o boné que usava. E a resposta saltou aos olhos. Na fronte, um hematoma se destacava.

No dia anterior, bem cedo, estava em um ponto de ônibus no Bairro das Indústrias, onde mora. Um amigo lhe fazia companhia.

– Aí chegaram dois homens em uma moto. Saltaram. Pediram dinheiro e nossos celulares. Entregamos tudo. Nem resistimos. Mas não foi o suficiente: um deles me atingiu na cabeça com o cano do revólver. Meu amigo, que também não reagiu, levou a pior e ainda está no hospital.

Vejam só a que pontos chegamos. Aliás, onde a violência chegou – na base da população. Pobre assaltando pobre, levando seu minguado dinheirinho e colocando em risco sua vida.

O outro extremo também está susceptível.

Dias antes, numa residência à beira mar de Camboinha, foi a vez da violência atingir o topo da cadeia social. O mega empresário Roberto Santiago, que saudava o dia de sol na companhia dos amigos, foi assaltado caminhando na praia ao voltar para casa.

Como vê, fechamos o ciclo. Generalizou. Indiscriminou.

Os dois extremos estão expostos: a violência ameaça do funcionário mais humilde do prédio ao empresário mais rico da cidade.

E eu, que sou marido, pai e avô me vejo hoje questionando a decisão da década de 70, quando resolvi morar aqui. Fiz mesmo a escolha certa?

Onde, aliás, esta escolha poderia ser assertiva? A violência é nacional. É nordestina. É paraibana.

O que não nos consola. Pelo contrário. Só mostra que a missão que temos pela frente – de devolver o Brasil aos brasileiros de bem – é mais complexa do que julga nossa vã filosofia.

O discurso oficial, porém, insiste em tentar aquietar os ânimos em função da generalidade da violência.

Como a violência está em todo lugar, não é responsabilidade de ninguém?

Já disse, e mais uma vez repito: o mal de todos é, definitivamente, o consolo dos tolos.

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