Há quase 40 anos assisto de posto privilegiado – o Sistema Correio de Comunicação – o desenrolar das batalhas eleitorais na Paraíba. Dentro da minha singela capacidade de avaliação, quase sempre consegui antever os resultados possíveis.
Claro que essas tabulações não são infalíveis. As vezes falho mesmo. Sempre, porém, dentro da margem de erro. Ou influenciado pelo surgimento de fatos novos.
Do meu posto de observação (e interação) contemplo as águias decolarem. Admiro seus voos – alçados, em sua imensa maioria, por mentes inteligentes, competentes, astutas.
Características, aliás, que sempre despertaram minha atenção e admiração nesta incessante tentativa de fuga da mediocridade.
Para além dos estudos, leituras e consumo de informações, é justo isso o que faço: observo as águias em ação.
E é por isso que custo a entender porque algumas dessas águias da política (muitas delas oriundas de nichos empresariais) se atiram em precipícios eleitorais com chance zero de um pouso vitorioso.
Não é preciso ter observado por tanto tempo a cena política para prevê que se trata de uma aventura inglória.
E não estou falando aqui das personagens pitorescas que amontoam os anais das campanhas eleitorais como anedotas. Não se trata, por exemplo, das marias doidas.
Faço referência a pessoas bem situadas financeiramente. Líderes ou herdeiros de grandes corporações, que subitamente surgem nos palanques da vida com pretensões estratosféricas que até o mais bem pago e entusiasmado cabo eleitoral sabe, de antemão, qual será o epílogo.
Se eles sabem, as águias também.
Por que então a sabedoria e a esperteza toma a decisão de decolar rumo ao insucesso?
Seria por vaidade?
Por despreparo político?
Desinformação?
Não acredito nestas hipóteses – até porque elas não combinam com a natureza astuta dessas aves. Que, no final das contas, são ainda mais espertas do que julga nossa vã filosofia.
Então, não tenham dúvida: alguma coisa – e muito vantajosa – atrai as águias para esta jornada eleitoral sem chance de vitória nas urnas.
Enquanto desfilam pretensões, costuradas com retalhos de boas intenções e alinhavadas com promessas republicanas, usufruem ao extremo das brechas fiscais e dos benefícios das verbas de campanha – originárias de fundos partidários e doações que permitem alavancagens financeiras sem tributação.
Traduzindo: em pleno voo, as águias instalam potentes lavanderias. Onde lavam, com acuidade, os recursos mobilizados nas campanhas.
Especialmente aquelas cifras vindas do Além (também conhecido como Caixa 2), que não são contabilizadas junto com os fundos partidários e as doações físicas e jurídicas.
Esses esquemas – é bom que se diga – são facilitados pelos perfis de alguns partidos, que se transformaram em agremiações familiares, com donos e senhores a decidir seus rumos.
Fica, literalmente, tudo em casa. Onde, afinal de contas, convém lavar roupas.
A verdade é que as siglas partidárias se transformaram em ferramentas inesgotáveis de manipulação de recursos. Ou será que já nos escapou da memória os fundos inesgotáveis da campanha collorida?
Claro que, de 1992 pra cá, a Justiça Eleitoral aprimorou e muito suas ferramentas de controle. Hoje, por exemplo, já é procedimento obrigatório o rastreamento dos doadores.
Até o mais despreparado observador há de notar, porém, que as verbas de campanha se transformaram em uma extraordinária estratégia para driblar o Fisco.
Mas não se pode – nem se deve – desdenhar da capacidade criativa para apagar rastros e escapar da malha fina.
Pois se as águias continuam decolando, certamente têm ninho onde pousar.