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Intervenção precoce melhora qualidade de vida de crianças com autismo

Neuropedriatra explica que tratamento padrão-ouro é a adoção de um conjunto de modalidades terapêuticas
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os primeiros sinais do autismo podem surgir antes mesmo dos dois anos de idade. Pouco ou nenhum contato visual, não apontar e nem falar ou balbuciar, movimentos repetitivos ou estereotipados, e hipersensibilidade sensorial são alguns deles. No mês da conscientização do autismo, a neuropediatra do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), Juliana Wanderley, explica como identificar o transtorno e aponta a importância do diagnóstico e intervenção precoces.

Segundo a médica, há uma diversidade de sintomas, mas a marca do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é o déficit na comunicação não-verbal, que varia desde a total falta de expressão facial até a inexistência de contato visual, sorriso ou apontar com a cabeça. Pouca resposta ao outro e a relação de amizade, quando ocorre, é usualmente por algum interesse específico de compartilhamento. A falta do brincar lúdico ou uma brincadeira com roteiro repetitivo é uma característica típica das crianças com o transtorno.

“Os comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos podem ocorrer de várias formas: discurso repetitivo ou a repetição de perguntas (ecolalia), sacudir as mãos, bater palmas, balançar o tronco, ranger os dentes, andar na ponta dos pés, reação exagerada ou diminuída a dor ou temperatura, interesse intenso por estímulos como luzes, padrões e movimentos, além da restrição alimentar excessiva. Esses sintomas configuram o núcleo do transtorno, mas a gravidade de sua apresentação é variável”, aponta.

Condição que leva a déficit no desenvolvimento do cérebro, o autismo atinge uma em cada 54 pessoas, segundo dados de 2020. No Brasil, a estimativa é que existam dois milhões de autistas. O TEA é uma condição de saúde que leva à defasagem na linguagem, na interação social, nos processos de comunicação e no comportamento social da criança. É caracterizado em vários subtipos, e está classificado dentro dos transtornos do desenvolvimento.

“O TEA tem origem nos primeiros anos de vida, mas sua trajetória inicial não é uniforme. Em algumas crianças, os sintomas são aparentes logo após o nascimento. Na maioria dos casos, no entanto, os sintomas só são consistentemente identificados entre os 12 e 24 meses de idade. O mais típico é acontecer uma parada no desenvolvimento após os seis meses de idade, como um platô, ou ocorre a desaceleração do desenvolvimento acompanhado de alguma perda das habilidades na comunicação social”, explica a médica.

Como diagnosticar e tratar

O diagnóstico do TEA é clínico e baseia-se na história contada pela família, pela observação e exame físico da criança e por registros em vídeos domésticos dos pais ou dos responsáveis nos primeiros anos de vida da criança.

A neuropediatra Juliana Wanderley afirma que devem ser seguidos critérios definidos internacionalmente, com avaliação completa e uso de escalas validadas. Deve-se incluir ainda a triagem para deficiência visual e auditiva. A especialista destaca que testes genéticos podem ser incluídos na investigação de um TEA secundário, como a análise cromossômica por microarray, teste molecular para a síndrome do X frágil nos meninos e a pesquisa da Síndrome de Rett nas meninas. Outras avaliações como exames de neuroimagem e testes metabólicos, devem ser empreendidos apenas na presença de achados clínicos sugestivos.

“Em outubro de 2017 foi sancionada a Lei n. 13.438, com a qual passa a ser obrigatória a aplicação de instrumento de avaliação formal do neurodesenvolvimento a todas as crianças nos seus primeiros 18 meses de vida. Em novembro do mesmo ano houve a elaboração, por parte do Ministério da Saúde, do Ofício n. 35-SEI/2017/CGSCAM/DAPES/SAS/MS, do dia 14 de novembro de 2017, que trouxe como consenso para fins de instrumentalização das redes locais, para alinhamento com a Lei acima, o uso da Caderneta de Saúde da Criança, como instrumento de maior alcance para a vigilância do desenvolvimento na puericultura”, citou.

Juliana Wanderley afirma que, além do pediatra, a criança pode ser atendida pelo psiquiatra infantil, psicólogo analista comportamental, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo, além do auxiliar terapêutico (no ambiente escolar). “É importante ressaltar que o diagnóstico do TEA deve ser realizado nos primeiros 2 anos de vida da criança, pois a intervenção precoce pode alterar o prognóstico e suavizar os sintomas”, afirma.

O tratamento do autismo é capaz de melhorar a comunicação, a concentração e diminuir os movimentos repetitivos, contribuindo assim para uma melhor qualidade de vida do próprio indivíduo autista e também da família. De acordo com a médica, o tratamento padrão-ouro para o TEA é a intervenção precoce, que deve ser iniciada tão logo haja suspeita ou imediatamente após o diagnóstico por uma equipe interdisciplinar, consiste em um conjunto de modalidades terapêuticas que visam aumentar o potencial do desenvolvimento social e de comunicação da criança, proteger o funcionamento intelectual reduzindo danos, melhorar a qualidade de vida e dirigir competências para a autonomia, além de diminuir as angústias da família.

“Dentre as modalidades terapêuticas, a Terapia ABA (Análise Aplicada do Comportamento) é a mais amplamente usada no Brasil. Os principais pilares da equipe interdisciplinar são a família, a equipe de educação e a de saúde. Atualmente não há tratamento farmacológico para os sintomas centrais do TEA. O tratamento psicofarmacológico visa o controle de sintomas associados ao quadro, quando estes interferem negativamente na qualidade de vida da criança”, explica.

Abril Azul

A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu em 2007 todo 2 de abril como sendo o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, com o intuito de alertar as sociedades e governantes sobre transtorno no neurodesenvolvimento, ajudando a derrubar preconceitos e esclarecer sobre o assunto. Em 2020 e 2021, a comunidade envolvida com a causa segue em uma campanha nacional com o tema único: “Respeito para todo o espectro”, para celebrar a data, usando a hashtag #RESPECTRO nas redes sociais.

“Como já disse o Dr. Ricardo Halpern, por muitos anos presidente do Departamento Científico de Pediatra do Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), esse ato, pelo seu simbolismo, abriu possibilidades para um maior diálogo entre as famílias, profissionais da área e os próprios indivíduos com TEA. Veio como um alerta necessário para que os transtornos invasivos do desenvolvimento, antes considerados raros, fossem vistos com maior responsabilidade. Pesquisas e o interesse pelo tema têm aumentado ano a ano, produzindo mais conhecimento, desmistificando crenças e afastando o que não é científico. Ações de conscientização sobre o tema são sempre bem-vindas”, enfatiza a neuropediatra Juliana Wanderley.

Sinais do autismo

  • Pouco ou nenhum contato visual
  • Não atende quando chamado pelo nome
  • Não aponta nem usa outros gestos para se comunicar, como dar tchau
  • Não fala nem balbucia
  • Alinhar objetos
  • Não brincar com brinquedos de forma convencional
  • Não responde a um carinho
  • Não imita movimentos e expressões faciais
  • Não consegue decifrar os sentimentos de outra pessoa e parece não se importar
  • Ser muito preso a rotinas a ponto de entrar em crise
  • Fazer movimentos repetitivos sem função aparente
  • Girar objetos sem função aparente
  • Hipersensibilidade ou hiper-reatividade sensorial

Locais para tratamento gratuito

Em João Pessoa, existe um ambulatório no setor de psiquiatria infantil do Hospital Universitário Lauro Wanderley para tratar os transtornos do desenvolvimento. O serviço abarca, entre outras condições, o autismo. Treino funcional, psicomotricidade e natação são atividades físicas que auxiliam muito no desenvolvimento dos autistas. Também são indicados grupos de habilidades sociais para a prática das interações no dia-a-dia e melhora no comportamento.

Em Campina Grande, há tratamento disponível no Centros de Atenção Psicossocial – Intervenção Precoce, conhecido como Capsinho, localizado na Avenida Barão Rio Branco, bairro da Prata. Lá, são oferecidos serviços de reabilitação e reinserção social, além de atendimento individual com neurologista, psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicopedagogo, terapeuta ocupacional, entre outras especialidades clínicas. Há ainda o Centro Especializado em Reabilitação, que oferece acompanhamento de Fonoaudiologia, Neurologia, Nutrição, Oftalmologia, Fisioterapia, Ortopedia, Otorrinolaringologia, Pedagogia, Pediatria, Psicologia e Serviço Social.

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