
A data de hoje marca os 200 anos de nascimento do poeta Gonçalves Dias, nascido em 10 de agosto de 1823, no Sítio Boa Vista, a 14 léguas da cidade de Caxias, Maranhão; sem dúvida, um dos maiores poetas da literatura brasileira – senão o maior.
É injusto destacar o maranhense apenas como poeta indianista, ou “o autor da Canção do exílio”. Ao se enfatizar apenas essa faceta da obra, coloca-se em segundo plano a poesia lírico-amorosa dele, uma das mais substanciais da nossa literatura.
Destaca-se, na lírica do poeta, aquele que foi considerado por Manuel Bandeira como sendo “o mais comovido e mais comovente poema de amor da literatura brasileira”: “Ainda uma Vez, Adeus!”.
É preciso, pois, ser explicado como nasceu o poema e que circunstâncias o geraram.
O poema em questão foi escrito após o último encontro do poeta com sua eterna amada: Ana Amélia Ferreira do Vale, em 1854, na cidade de Lisboa.
Mas para chegarmos até esse momento e transcrevermos o poema, precisamos contar ao leitor essa bela e comovente história de amor.
Gonçalves Dias conheceu Ana Amélia na casa do amigo dele Alexandre Teófilo: muito mais que amigo; um confidente e benfeitor, que sempre o ajudou nas horas difíceis, mas, paradoxalmente, fê-lo, acreditando ser o bem dele, fugir da mulher amada, ato pelo qual nunca se perdoou, conforme deixa claro no “Ainda uma Vez – Adeus!”.
No ano 1846, Gonçalves Dias foi apresentado por Alexandre a Ana Amélia. Ela com 15 anos e o poeta com 23.
A avassaladora paixão foi imediata! Ana Amélia também se apaixonou; de modo que se gerou o fascinante idílio.
Ocorre que o preconceito não iria deixar aquele amor ter final feliz. Quando o poeta, enfim, superou o drama íntimo, resolveu pedir a mão da moça em casamento, embora já tivesse sido aconselhado pelo amigo e confidente a não fazê-lo.
Mas por que não o fazer? O que impedia o casamento?
O preconceito, gerado por valores sociais.
A mãe de Ana Amélia, branca, portuguesa, jamais aceitaria – e realmente não aceitou – o casamento da filha com um mestiço. Gonçalves Dias era filho de um branco com uma cafuza. E o pior: Ao responder a carta dele com o pedido, humilhou-o, de forma degradante.
Ferido, atordoado, complexado, o poeta toma a difícil decisão de se afastar de Ana Amélia. Não adiantaram os insistentes pedidos dela para fugirem, o que o fez carregar, para o resto da vida, o torturante remorso, conforme relata nos versos do poema, sendo as estrofes a seguir apenas alguns exemplos:
“Pensar que o teu destino
Ligado ao meu outro fora
Pensar que te vejo agora
Por culpa minha infeliz…
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera
No meu caminha a pusera
E eu fui que a não quis…
És doutro agora, e p’ra sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!”
Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão! de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
Após o desenlace, ele que desde o dia em que a conhecera passou a escrever poemas inspirado nela, acentuou a produção lírico-amorosa, que nos deu os melhores poemas de amor da nossa literatura como: “Seus Olhos”; “A Leviana”; “Se se Morre de Amor” e o antológico “Ainda uma vez – Adeus!”, que transcreveremos ao final.
O reencontro com Ana Amélia, o remorso, a dor lancinante e a inspiração para o “Ainda uma Vez – Adeus!”
Quis o destino que o poeta, que estudara em Coimbra, voltasse, já casado com Olímpia Coriolana da Costa, a Portugal; desta feita, para Lisboa.
Ocorre que a amada, Ana Amélia, estava morando lá. Para se vingar dele, casara com um comerciante, também mestiço.
Em 1854, eis que o poeta a encontra numa das praças de Lisboa. E aí nasce o maior – e melhor – poema de amor de que se tem notícia: “Ainda uma Vez – Adeus!”, transcrito a seguir, claramente autobiográfico:
AINDA UMA VEZ – ADEUS!
I
Enfim te vejo! – enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado,
A não lembrar-me de ti!
II
Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludibrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!
III
Louco, aflito, a saciar-me
D’gravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp’rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este logar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu.
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura…
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!…
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que ma darias – bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!
VII
Oh! se lutei!… Mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?
VIII
Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu quinhão de dor!
IX
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
X
Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
“Seu descanso é obra minha.”
Negou-me a sorte mesquinha…
Perdoa, que me enganei!
XI
Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!
XII
Enganei-me!… – Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra,
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu’era…
E um louco fui, nada mais !
XIII
Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co’o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.
XIV
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera…
E eu! eu fui que a não quis!
XV
És doutro agora, e p’ra sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!
XVI
Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão! de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
VXII
Adeus qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!
XVIII
Lerás porém algum dia
Meus versos, d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; – e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade,
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, – de compaixão.
Obras poéticas do autor
Primeiros cantos (1846).
Segundos Cantos e Sextilhas do Frei Antão (1848).
Últimos Cantos (1857).
Os Timbiras (1857).
Bibliografia
Gonçalves Dias, Poesia Completa e Prosa Escolhida. Editora José Aguilar, 1959.
Literatura Comentada. Editora Abril. 1ª edição, 1982.