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‘Lembranças da morte’: a nova coluna de João Trindade

Foi sinistro aquele 17 de janeiro de 1963. Com apenas cinco anos de idade, acordei assustado; sonhara que uma mulher matara meu pai. Eu nunca houvera visto um revólver antes, mas era nítida a visão da mulher, de revólver em punho, e meu pai caindo na cama.

Acordei assustado. Chamei meu pai e minha mãe e lhes contei o sonho. Meu pai, com o orgulho e o machismo peculiares do sertanejo, limitou-se a dizer: “Deixe de besteira, meu filho; nem um homem não me mata, quanto mais uma mulher!”. E saiu para a roça, não sem antes pedir à minha mãe que ficasse comigo, até que eu adormecesse, já que eu estava assustado.

Minha mãe estava fazendo o café na sala de jantar, quando, mais uma vez assustado, agarrei-me às pernas dela e afirmei, chorando: “Sonhei que uma mulher matava meu pai”.

Nove horas da manhã do mesmo dia. Um emissário vem avisar que meu pai está “muito doente”, na roça. Minha mãe, desesperada, já prenuncia: “Vocês estão me enganado; Zé Trindade já morreu”. Lembro-me, então, da carreira que demos para a roça: eu, mamãe e Francisco, um irmão mais velho que eu. Quando chegamos no Zoiti, o povo já vinha em fileiras, lá da roça, como se fosse uma procissão. Sapecado, desavisado, vinha falando alto: “Morreu”. “Quem morreu, meu filho?”. “Nada, não; um galo. A gente estava vendo uma briga de galo”. A partir daí, minha mãe disparou no choro. Estávamos, então, próximo da casa onde meu pai, já sem vida, recebia a visita dos inúmeros amigos que tinha na cidade.

Como tirar a lembrança desse dia, da minha cabeça? Como me livrar, sobretudo, da fatalidade de haver previsto a morte de meu pai? Ele não foi assassinado, é certo; mas morrer no mesmo dia, na mesma manhã da minha previsão?… Fico me perguntando como uma criança que nunca houvera visto um revólver teria visto em sonho. E a mulher? Seria uma metáfora da morte?

Eu não sabia o que era morte. Tanto que só fui sentir mesmo a morte do meu pai quando alguém, incauto na minha visão, colocou-me bem à beira da sepultura e eu vi jogarem pedras por sobre o caixão. Um barulho terrível de pedras e terra ecoava, na hora final do enterro. Foi aí que eu chorei. Compreendi, ali, que meu pai não voltaria mais. Na minha inocência, não entendia por que estavam jogando terra no meu pai.

No mesmo dia do enterro, meu pai me apareceu no banheiro. E não foi uma aparição rápida. Ele me olhava como se me quisesse dizer algo. Seu olhar pedia que eu lhe escutasse. Era fim de tarde. Como tinha “medo de alma”, corri com medo do meu próprio pai. Quando contei, ofegante, o caso à minha irmã Auxiliadora, ela me incriminou, pelo fato de eu não haver falado com ele.

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