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Lição

Se estivesse vivo, e no meio da multidão que se aglomerava no NRG Stadium em Houston, Nelson Rodrigues teria mais uma vez aludido que os deuses do futebol estavam em um dia de graça.

Mesmo que a partida de futebol em epígrafe – imagine que heresia!– estivesse sendo jogada com as mãos.

Confesso que estranhei – nunca havia assistido por completo a uma partida de futebol americano (até porque não entendo quase nada).

Mas a final do Super Bowl, que mobiliza os Estados Unidos, atravessou continentes e aportou nas redes sociais da família.

Primeiro veio a mensagem de meu cunhado – que é alemão, mas já morou nos Estados Unidos -alertando o filho para não perder por nada a superfinal.

Depois meu filho Lucas, que é publicitário, deu a deixa definitiva para eu me postar diante da TV:

– Rob, o Super Bowl tem a janela comercial mais cara do mundo!

E é caríssima mesmo: míseros 30 segundos custam mais de US$ 5 milhões.

Cá com meus botões, pensei: se um evento esportivo movimenta essas cifras monumentais, deve valer a pena. E lá fui eu assistir um espetáculo que durou 3 horas e 30 minutos, dividido em quatro tempos de 15 minutos, intercalados por apresentações musicais de astros do universo pop.

De fato, trata-se de um fenômeno fantástico.

Ainda estou me perguntando como eles conseguiram montar e desmontar, no pequeno intervalo entre o segundo e o terceiro half, o show de Lady Gaga… Numa fração de segundos, 300 drones iluminavam o palco.

E a despeito de toda a parafernália, de toda a música e plástica audiovisual, o grande enredo seria mesmo escrito dentro das quatro linhas pelos protagonistas do New England Patriots e do Atlanta Falcons.

Eu tinha de cara uma predileção: em Boston, terra dos Patriots, minha neta Beatriz estava na torcida. Com o pensamento nela, e nos comerciais milionários, apertei o play no Super Bowl.

Meu primeiro contato com o futebol americano foi marcado por recordes históricos e uma virada que nem Hollywood ousaria imaginar – e se o fizesse correria o risco de ser criticado pelo excesso de fantasia e mentiras.

O primeiro half terminou em zero a zero – uma mostra de que o futebol americano, assim como o futebol que conhecemos e amamos, não é um evento esportivo que rende placares elásticos.

O segundo half foi marcado por uma atuação arrasadora do Atlanta, que fechou o tempo com 21 a 3.

No terceiro half, o Atlanta continuou o massacre: 28 a 9.

Os comentaristas relatavam o feito incrível do time da Geórgia, impressionando com a incontestável supremacia.

Eles não esperavam – quem poderia? – o que viria a seguir.

Em um quarto half histórico, o Patriots comandou uma recuperação extraordinária.
Conseguiu fazer 18 pontos, encostando no placar. Faltava mais um para o empate – e ele ocorreu a apenas 57 segundos do término do jogo.

A arquibancada explodiu. Os comentaristas, atordoados, foram à loucura em suas cabinas.

No tempo extra veio a virada: em quatro minutos, o Patriots marcou mais seis pontos e fechou a vitória por 34 a 28.

Nunca, nas 51 finais do Super Bowl, a decisão havia ido para a prorrogação. Nunca, em meio século, a América havia testemunhado reviravolta tão sensacional.

Da minha poltrona, entendi que ali se desenrolava mais do que esporte – materializava-se mais uma metáfora pragmática, nos oferecendo lição importante para a vida:

Não existe nada – nada mesmo – que esteja irremediavelmente perdido.
Ou nada que esteja definitivamente conquistado.

Você sempre poderá reverter suas dificuldades.

Mantendo a consciência de que jamais pode menosprezar seus adversários – pois eles também podem conhecer esse poder misterioso da superação, alcançando-o a qualquer momento.

Mesmo que seja no quarto tempo de sua existência.

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