Guardadas as devidas proporções, o Brasil construiu – milênios depois dos relatos bíblicos – sua própria versão de Sodoma e Gomorra.
E ela atende por Brasília.
A capital dos brasileiros, que deveria ser exemplar, dá exemplos tristes à nação – ostentando em alta voltagem o que existe de pior na República: permissividade, ladroagem, fausto perdulário, esbanjamento.
Como conceber que uma capital que nada produz tenha a maior renda per capita do País?
Brasília produz ascensoristas que ganham mais do que um médico e telefonistas com renda superior a de um professor com pós-doutorado.
Não me interpretem mal: não vai aqui embutido nenhum demérito a ascensoristas e telefonistas. Mas sim a um sistema que distribui benesses destoantes na teia de relações viciadas, que conhecemos por apadrinhamento e politicagem.
Historiadores haverão de contemporizar que estes são percalços de uma jovem democracia, em franco aprimoramento de suas instituições.
E eles estão certos. Mesmo com problemas, os nove fora da equação democrática provam que este é (ainda) o sistema menos falho.
A liberdade de expressão e as conquistas amealhadas em 126 anos de República produziram avanços incontestáveis.
No Brasil de antes, o filho da empregada doméstica muito provavelmente seria empregado doméstico. Neste Brasil do século XXI, o filho da doméstica é doutor.
Estamos, portanto, caminhando – porém em ritmo muito mais lento do que suporta nossa paciência.
E já que estamos na seara bíblica, me ocorre que nem Jó conseguiria ser tão tolerante com o Brasil e muito menos com nossa Capital Federal.
Isto nos remete ao fato de que, junto com a resignação, tem que coabitar a indignação.
É preciso que nos indignemos com mandatos eternizados; com o uso indiscriminado do chapéu público; com as hordas que pilham, de Brasília, o País.
Pois é difícil testemunhar a lascívia com que nossa Sodoma trata o dinheiro público. Ou a concupiscência insaciável com que a Gomorra tupiniquim se apropria do que é do povo.
Entre fluxos e refluxos, precisamos de uma curva de tendência para voltarmos a acreditar.
Porque podemos até mergulhar em crises econômicas e políticas, geradas nas disputas que desenrolam no Plano Piloto. E até testemunharmos, sem entrar em desespero, a sucessão de escândalos que sacodem nossa pátria mãe gentil.
Mas só se, aqui e agora, o coração da nação sinalize que está pronto para ouvir a indignação das ruas e dar um sonoro basta a este eterno randevu.
Pois se até dentro de casa o exemplo precisa vir de cima, Brasília não pode seguir dando mau exemplo ao Brasil.