Ela foi educada – como as mulheres do seu tempo, naquele início de século XX marcado pelo machismo patriarcal – a um papel secundário na sociedade e em sua própria história.
Sinhá Fernandes, porém, estava predestinada a subverter as regras, mesmo que tenha cumprido todas elas: a de esposa atenciosa, mãe de longa prole, comandante da casa grande e de toda a sorte de tarefas árduas que aguardam as sinhazinhas nos rincões do Cariri de ontem, hoje e sempre.
A força e coragem, a generosidade e a genialidade embutida em seu DNA – herança que esta Eva caririzeira passou para sua descendência – são responsáveis por esta subversão bendita, que viabiliza a construção de seu espaço na imortalidade.
Ela é capa e recheio de Mãe Sinhá Memórias e Lições, escrito em prosa, versos e amor transbordante em cada linha por seus meninos – como ela assim tratou em qualquer época e idade os doze filhos – para imortalizá-la em seu centenário.
Uma imortalidade que ela própria garantiu com sua singular pluralidade.
A mensuração da força de Mãe Sinhá demanda um recuo no tempo. Um retorno a 1914, quando ela nascia e coincidentemente nasciam René e Beatriz, meus pais; à sua infância, assistindo-a escapar de doenças que levaram muito dos seus irmãos; e à sua mocidade, quando se tornou mãe menina.
É preciso de fato voltar ao passado para encontrá-la em Capitão Mor e Pitombeiras, seu mundo, onde não existia luz elétrica nem antibiótico. E instrução era privilégio concedido aos homens e a poucas – raras – mulheres.
Neste recuo é possível vê-la ao lado do valente Malaquias Fernandes, armas ladeando a cintura, coração e mente fixados na terra – de onde se formava a base frágil de sustentação econômica da família.
Ela também olhava para a terra, mas a mente enxergava horizonte mais largo – onde ela desejava vislumbrar seus filhos.
Foi sua visão de longo alcance, sua renúncia para ver seus meninos partirem em busca de instrução que Mãe Sinhá forjou juristas, cientistas, mentes criativas e geniais, entre os quais está meu irmão e guru da sabedoria Zé Fernandes e também Malaquias Batista Filho, cuja genialidade atravessa fronteiras.
Ela conseguiu enxergar longe em meio ao acordar madrugal, as caminhadas em busca da água, a varrição do terreiro, o cuidado com os bichos, o zelo desmedido com os meninos, a lavagem de trouxas e mais trouxas de roupas com água da chuva – sem jamais descuidar do cafezinho do seu Malaquias.
E talvez seja exatamente por isso – por suas ocupações, seu tempo e seu lugar que se faz a magia de Mãe Sinhá.
Não é preciso ser filho nem neto, parente ou aderente para saber que celebramos, neste centenário, a existência de uma gigante.
Cujo legado – acredite – a Paraíba haverá a seu tempo de tomar conhecimento.
Parafraseando o primogênito Malaquias Batista Filho, vivos ou mortos nós ajudaremos.