Outro dia, circulando em um bairro tradicional de João Pessoa, me deparei com uma casa de arquitetura interessante. Em outros tempos, deveria ser muito simpática. O muro altíssimo que a circundava, arrematado pela maior cerca elétrica que já vi por estas bandas, lhe tirou parte do charme. E exibe, em alta voltagem, os tempos bicudos que estamos vivendo. De pronto, exclamei:
– Meu Deus, a que ponto chegamos? Como o descaso público nos envolveu em tamanha sensação de insegurança?
Esta foi minha primeira reflexão.
Mas, ato contínuo, brotou uma inquietação. Me vi auto interrogando:
– Por que sempre visualizamos o problema em terceira pessoa? São sempre eles que deveriam ter feito alguma coisa? Será que nós não temos nossa parcela de culpa? Eu não tenho responsabilidade nisso?
Sim, tenho. Sou culpado – e não é pouco.
Na última semana, completei 69 anos. Já poderia estar pendurando as chuteiras. Mas, ao invés disso, as calço diariamente em um ritmo de trabalho alucinante. Os que me conhecem, sabem que esta é uma das minhas principais características. E me alenta saber que este é o maior dos exemplos que dou a minha família.
– Mas seria suficiente?
Coleciono muitos arrependimentos na vida. Um deles é não ter estudado mais – um pecado e tanto para quem nasceu e se criou em uma família de intelectuais. E a despeito de não ter queimado um pouco mais as pestanas nos livros, aceito e gosto de ser tratado como doutor Roberto.
Mas não sou doutor. Não tenho doutorado. Também não domino com fluência outros idiomas, o que me faz uma falta tremenda.
Apaziguo a frustração listando inúmeras justificativas, enquanto rejeito o óbvio: não sou doutor nem falo com desenvoltura outras línguas por burrice mesmo. Ou pior: por preguiça.
Ainda bem que meus filhos e netos tiveram mais visão que eu. Não mimetizam meu exemplo torto.
Para além dos exemplos que deixei de dar no âmbito familiar, reconheço que também não contribuí tanto quando deveria para que tivéssemos hoje um Brasil melhor e uma Paraíba mais próspera.
E este é um grande pecado – robusto mesmo – para um cidadão que há mais de 35 anos iniciava atividades no ramo de comunicações, formando opinião.
Olhando pelo retrovisor, sei distinguir até onde se situa meu maior erro.
Foi lá atrás, bem no início, quando não resistimos ao assédio de um candidato ao Governo do Estado. Seus emissários o “vendiam” como o homem que faz tudo acontecer – que empregava todos, resolvia tudo, distribuía favores, conseguia o que queria. E conseguiria também o Palácio da Redenção.
Eu e meu primo e sócio, Paulinho Brandão, entoamos o canto falso da sereia. E ignoramos que do outro lado da disputa estava um ideólogo – um homem tão sério e íntegro que cunhou o gracejo de que pedia certidão negativa de cada eleitor e de cada voto.
Errei. O imediatismo, o oportunismo eleitoral e o pragmatismo venceram a ideologia. E acabei sendo peça na composição dos fatores que levaram uma fraude para o poder.
O equívoco me cobrou preço alto – e mais alto ainda ao meu primo Paulinho.
Verdade que tentei me redimir mais tarde, apoiando decisivamente a integridade que havia ignorado no início do Sistema Correio.
Porém a culpa persiste. Pois sei que nem sempre tomei, em meus momentos de participação cívica, o lado do bem.
Assim como me deixei enredar, no comando do Sistema Correio, por “amigos” que bateram continuadamente a minha porta clamando por minimizações e omissões públicas de suas falhas e das falhas cometidas pelos seus.
A todos eles – e a mim mesmo – faço uma promessa: serei mais atuante do bem; menos tolerante com o mal. E começo assumindo mea-culpa, mea máxima culpa.
Mea-culpa por não ter repudiado estas clemências indevidas.
Mea-culpa ter por não ter combatido com mais energia as forças ideológicas e empresarialmente antagônicas.
Mea-culpa por me deixar conduzir, por estas mesmas forças, para longe do que penso e pratico.
Mea-culpa por adiar até agora a decisão de não mais ser bonzinho com quem não merece a bondade.
Mea-culpa pelas más escolhas.
Mea-culpa por responsabilizar terceiros pelo muro alto e a cerca elétrica que nos prendem dentro da nossa omissão.