Ele tinha uma linguagem própria que prescindia de letras e números. Falava com o simbolismo das cores, traços e formas, e conseguia se expressar com mais intensidade e nitidez do que se escrevesse uma crônica. Além disso, tinha o dom de penetrar no pensamento alheio, de transmitir uma mensagem de forma bela, simples e direta. Era um artista, um mago, um mestre da criação publicitária com a qual mantinha extraordinária intimidade.
Tínhamos uma convivência profissional estreita. Nos identificávamos também pelo sentimento, pela afinidade, pela simplicidade como encarávamos a vida, os seus encantos e os seus mistérios. Como todo artista, era um homem de sentimentos fortes e profundos, que, entretanto, mantinha sob severa vigilância. A sua timidez crônica não lhe permitia extravasar o que acumulava em sua alma de menino, em seu coração adolescente.
Difícil era vê-lo alterar a voz. Falava pouco e baixo. Quando envolvido em um trabalho, postado junto a uma velha prancha de desenho ou em frente a um computador, não se permitia sequer olhar para o lado, inteiramente envolvido com o seu processo criativo, com os detalhes de um traço, de uma cor, de um detalhe que pudesse revelar o exato conteúdo que lhe ditava a sua imaginação fértil e criadora.
Fizemos muitos trabalhos juntos, desde a capa do meu primeiro livro à logomarca que assinava a maioria dos meus eventos. Muitas vezes recorri a ele para mudar o visual de minha coluna, desde os tempos de O Norte, para torná-la mais leve e atraente aos olhos dos leitores.
Como homem, tinha o caráter e a integridade de poucos. Era tão honesto em suas avaliações e tão reservado em suas pretensões que, por vezes, não sabia cobrar o justo preço do seu trabalho. Remunerava-se com a satisfação e a emoção daqueles que lhe entregavam a responsabilidade sobre as suas obras e projetos. Era um trabalhador sempre em busca do salário moral, muito mais do que a recompensa em dinheiro.
Perdi um grande amigo e a Paraíba um artista precioso, um profissional exemplar, que, nesses anos todos, entre cartazes, placas, capas de livro, símbolos e logomarcas, construiu uma marca indelével para identificar a qualidade de um bom produto: a sua própria assinatura, Milton Nóbrega.
Deus há de lhe receber com o mesmo amor e carinho que você compartilhou com todos nós.