Estava em Campina Grande desde o dia anterior participando da colação de grau da UEPB, onde Severino Xavier de Souza paraninfava todos os alunos que recebiam seus diplomas. Para quem não sabe, S. X. de Souza é o famoso compositor e intérprete Biliu de Campina, um dos mais originais e autênticos músicos nordestinos. Ele recebeu do reitor da UEPB, Rangel Júnior, o documento de paraninfo geral. Terminada a solenidade, partimos – Biliu e eu – para comemorar na Cantina do Manoel a honraria que lhe fora concedida. Saímos pela madrugada depois de muita conversa sobre origens e destino da música popular paraibana, que tem agora abrigo no Museu de Arte Popular da Paraíba, uma bela obra de Oscar Niemeyer, ancorada à margem do Açude Velho.
Não imaginava jamais que no dia seguinte receberia a trágica notícia da morte repentina de Milton Nóbrega, transmitida seguidamente por vários amigos comuns que sabiam da minha amizade com esse grande artista. Milton faria 70 anos em 22 de dezembro. Sei disto porque há pouco mais de vinte anos, quando ele ia a Campina Grande prestar serviços à Grafset, nos encontrávamos. Conversa vai e vem, descobrimos ter nascidos na mesma data. Espanto foi quando soube que eu também, como ele, era vascaíno desde menino. Tantos anos de convivência para descobrir a partir daí uma coisa mais além que a amizade e nosso traço comum pelas artes visuais. Desde então, nessa data passamos a nos telefonar para comemorar mais um ano vivido. Última vez que nos encontramos falei do projeto que pretendo realizar em 2015, quando completarei 50 anos dedicados à cultura paraibana. Propus fazermos uma exposição conjunta sobre nossas trajetórias. Ele, mais gráfico que eu e com pouca produção naquilo que chamamos artes plásticas; eu, com mais artes plásticas e em menor escala em artes gráficas. Um completaria o outro. Juca Pontes me afirmou que vai cuidar dessa exposição.
A partida de Milton me faz pensar mais uma vez na Morte, essa companheira inseparável de Augusto dos Anjos. Me leva a Castañeda, num dos seus livros onde o personagem, sentado num abismo, percebe alguém ao seu lado, uma sombra. Era a Sinistra! E ele pergunta: “Vais me levar?” E ela responde: “Quando eu quiser. Mas vamos conversar porque preciso de companhia”. É sempre assim, não podemos fugir. Só nos resta fazer dela uma companhia, confidente, a única capaz de nos ouvir, em silêncio, nossas mágoas, infelicidades, queixas, decepções. Ninguém que viu a sua face retornou para dizer como ela é. Apenas chega e parte carregando sua presa – a vida. A carcaça e a memória do morto, deixa para trás, pois isso pertence ao mundo, que delas saberá fazer o que bem entender.