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Minha muralha

Inserida no roll das Sete Maravilhas do Mundo – única possível de ser vista a olho nu da Lua – as Grandes Muralhas da China despertam curiosidade de viajantes do mundo inteiro.

Sou um deles.

Desde a infância desejava ir lá – um desejo que, felizmente, acabei de realizar.

Já imaginava que a experiência seria emocionante. Minha emoção, porém, não teve relação direta com a magnitude da obra de engenharia iniciada no ano 220 A.C., erguida sobre cordilheiras para supostamente proteger o povo chinês dos ataques dos inimigos do norte, os mongóis.

Na muralha dos chineses, meu subconsciente disparou um gatilho do passado. E o coração se apertou com a lembrança de uma outra muralha.

A minha.

Erguida no Altiplano Cabo Branco – numa época em que a região era bucolicamente povoada por pequenas granjas -, a muralha dos Cavalcanti Ribeiro guardou minha vida e da minha família.

Foi um tempo de agonia. Meu primo e sócio Paulinho Brandão havia sido brutalmente assassinado – uma morte arquitetada e executada a mando do Governo da época. E sabia que destino análogo me aguardava em cada esquina.

E o que se faz quando o seu inimigo é quem, supostamente, deveria protegê-lo?

O que efetivamente é possível fazer quando não se pode chamar a polícia, pois esse chamamento significaria o seu fim?

Se defender.

Foi isso o que fizemos. Erguemos nossa muralha no entorno da nossa casa, do nosso ninho.

Minha memória é capaz de desenhá-la em detalhes. Tinha muros de quatro metros de altura. Sobre eles, arames farpados eletrificados. E em cada canto, uma guarita elevada, vigiada 24 horas por dia.

Sobrevivemos, protegidos dentro de nossa muralhara, por mais de dois anos – uma prisão que só começou a ser flexibilizada a partir de 1986, com a chegada do governador Tarcísio Burity ao Palácio da Redenção.

Mas lhes asseguro: não se passa por uma prisão (mesmo as voluntárias) sem danos. Você escapa dela. Mas ela não escapa de você.

No momento em que pisei na muralha dos chineses, a minha se ergueu – imensa – diante de mim.

Da lua era possível testemunhar que ali embaixo, perdido naquele gigantismo, tinha um homem subitamente atingido pelas lembranças de uma muralha que já veio abaixo, mas continua sólida – resistindo ao tempo – em seu coração.

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