Em meio à neve no rigoroso frio do inverno europeu de 1944/45, tropas brasileiras participavam da campanha dos Aliados contra as forças da Alemanha Nazista no teatro de operações da Itália durante a II Guerra Mundial. Entre os vários locais por onde os pracinhas do Brasil lutaram, um tornou-se emblemático pelas dificuldades para ser conquistado e pelas baixas que causou entre os brasileiros: Monte Castello.
Hoje, 21 de fevereiro, completa 75 anos da tomada daquela elevação perdida na paisagem da Itália. Nessa batalha, vários paraibanos estiveram presentes. Um deles, o segundo-tenente Bráulio dos Santos Pinto, mantém viva na memória a sua trajetória no maior conflito armado da história.
O pracinha Bráulio atualmente reside em João Pessoa e recordou em entrevista à equipe de comunicação do 1º Grupamento de Engenharia, sediado em João Pessoa, a sua jornada na II Guerra Mundial. Nascido em 1923, em Bananeiras, no Brejo paraibano, o segundo-tenente Bráulio ainda novo foi morar em Mamanguape. O jovem gostava de ler e particularmente de História. O ano era 1941, a Europa, parte da África e do Oriente Médio estavam em guerra. No litoral nordestino, submarinos alemãs e italianos afundavam navios brasileiros, causando dezenas de mortes.
“No advento da II Guerra Mundial, o Brasil sofreu várias perdas de navios, de carga, de passageiros. Eu como gostava muito de história me dediquei a saber o que ocorria no Brasil. Apesar das dificuldades de comunicação, aquilo me deu um entusiasmo para me apresentar ao Exército Brasileiro como soldado para lutar”, revela o ex-combatente.
O então jovem Bráulio se alistou e ingressou no 15º Regimento de Infantaria, em Cruz das Armas, em João Pessoa. Depois, seguiu para Recife onde fez curso para se tornar cabo. Ao receber as divisas, ele ouviu do oficial que o mesmo “queria encontrar conosco na guerra”. Depois fez novo aperfeiçoamento e tornou-se sargento.
Com o Brasil já na guerra, Bráulio passou seis meses guarnecendo o litoral paraibano na região de Mamanguape. Depois, mais um período de instruções em Pernambuco e o retorno ao 15º, quando se apresentou para lutar na guerra. “Aí começou a fazer seleção para ir para o Rio de Janeiro. Foi quando eu e vários amigos meus da minha companhia nos apresentamos como voluntários para ir para a II Guerra”, relembra.
O pracinha Bráulio rememora que embarcou para a guerra no navio de transportes de tropa americano USS General W. A. Mann. O destino, o porto de Livorno, Itália. O paraibano integrava o Regimento Sampaio, que compunha o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB), com 5,8 mil homens. A partida ocorreu no dia 2 de julho para uma viagem cheia de temor de ataques de submarinos alemães, os famosos U-boats.
“Nosso navio foi comboiado pelos navios da esquadra brasileira e americana, mesmo assim houve várias tentativas de infiltração de submarinos alemães”, conta. A viagem tensa durou 15 dias. Os pracinhas acabaram desembarcando em Nápoles.
Na chegada, ainda desarmados e usando o uniforme brasileiro que tinha semelhanças com o dos alemães, uma certa confusão foi gerada com os pracinhas sendo confundidos como prisioneiros alemães por alguns civis italianos e militares americanos. “O nosso uniforme confundia muito com o uniforme do alemão. Depois recebemos uniformes americanos”, conta o ex-combatente.
A FEB iniciou a partir daí treinamentos para se adequarem a forma de luta dos Aliados e se familiarizarem ao terreno do norte da Itália e às novas armas de fabricação americana.0
Logo após a chegada, a FEB foi incorporada ao V Exército Norte-Americano.
Mais quatro escalões da FEB seriam enviados para lutar na Itália até o começo do ano seguinte, totalizando 25,344 militares brasileiros.
O Monte Castello é uma elevação de 977 metros de altitude localizada na cadeia dos Apeninos, entre as regiões italianas da Toscana e Emília-Romanha. Durante a I Guerra Mundial a elevação não foi capturada por forças atacantes. Na II Guerra Mundial ela continuava invencível. Entre 1944/45 caberia à FEB tomar esse objetivo militar.
As forças brasileiras, em conjunto com a Força-Tarefa 45 dos EUA, começaram os primeiros ataques ao Monte Castello no dia 24 de novembro. “Eu participei do primeiro ataque feito ao Monte Castello em novembro de 1944. Nós atingimos a maior parte do Monte Castello, quando o alemão contra-atacou e nós tivemos que recuar”, lembra o pracinha Bráulio dos Santos.
No dia 25 uma nova tentativa, continuação da ação do dia anterior, também não obteve êxito. Os pracinhas enfrentavam na subida fogo alemão de três lados (frente e flancos direito e esquerdo). De qualquer modo, o Monte Belvedere, localizado à esquerda do Castello, foi ocupado, eliminando um campo de tiro inimigo.
Um novo ataque ao Monte Castello foi marcado para o dia 29 de novembro de 1944. Infelizmente para os brasileiros, as tropas da 232ª Divisão de Infantaria alemã, retomaram na data anterior ao ataque, o Monte Belvedere que era ocupado pelos americanos. Novamente, os pracinhas tiveram que encarar os disparos inimigos de três frentes. A chuva de bala impediu o sucesso na ação. A desvantagem dos atacantes era grande.
“Há um adágio que diz que ‘o homem na guerra se transforma em uma fera!’ Essa fera estava dentro de todos os brasileiros. Eu sentia essa força em cada soldado brasileiro. De querer acabar com a ditadura de Hitler”, frisa o ex-combatente paraibano.
A ação acabaria em fracasso novamente, o Castello continuava em poder das forças alemães. Dali e de vários montes que formam a cadeia dos Apeninos, as forças alemães e italianas ligadas ao Partido Facista de Benito Mussolini impediam a passagem dos Aliados através do Vale do Rio Pó, o caminho para a conquista do norte da Itália.
Se os ataques anteriores resultaram em recuo, os brasileiros ainda iriam enfrentar o momento mais mortífero e sangrento da batalha por Monte Castello. O dia 12 de dezembro de 1944. O inverno se aproximava e o frio já era intenso. Naquele dia, foram 145 pracinhas mortos durante os combates.
Homens dos Regimentos Sampaio e Onze, apoiados por tanques da 1ª Divisão Blindada americana e aviões do 1º Esquadrão de Caça do “Senta a Pua” (brasileiros que também operavam na Itália com os caças P-47 Thunderbolt) atacariam a posição.
O plano no papel era bom, mas a ação acabou em desastre. O clima chuvoso atrapalhou a participação dos aviões, o bombardeio da artilharia começou mais cedo e alertou os inimigos que reforçaram suas posições. Os blindados americanos também não puderam participar efetivamente da ação.
E mais uma vez os pracinhas avançaram expostos contra a linha de fogo de três lados. As mortes brasileiras naquele dia de batalha totalizaram quase um terço do total de baixas fatais sofridas pela FEB em toda a campanha na Itália.
“O que causava maior tristeza era após o combate encontrar muitos soldados mortos, muitos americanos mortos, carregados pelos pelotões de sepultamento. Isso causava muita tristeza”, lembra o segundo tenente Bráulio.
Em entrevista concedida a este jornalista em matéria publicada na revista A Semana no ano 2000, quando a tomada de Monte Castello completou 55 anos, um outro pracinha paraibano, o cabo atirador Benjamim de Souza Fonseca, que lutou no ataque do dia 12 de dezembro, lembrou: “A gente recebia fogo de todos os lados na subida para o Castello. O frio era terrível e o ataque não pôde receber apoio da FAB (Força Aérea Brasileira) porque o céu estava encoberto. Os tanques americanos também não puderam apoiar. Eu vi muitos companheiros tombarem no ataque”.
Na mesma entrevista, outro pracinha, o sargento José de Oliveira Neves, que comandou uma seção de metralhadora na ação, ressaltou: “Monte Castello foi uma questão de honra para os brasileiros”.
O mais triste dia da campanha da FEB terminou com 112 baixas no 1ª Regimento Sampaio, e outras 33 do 1ª Batalhão do Regimento Onze.
As perdas humanas e o recuo do dia 12 de dezembro geraram críticas, mas também serviram de grande aprendizado. De qualquer forma, o rigoroso inverno impediria novas ações para tomada do monte durante várias semanas.
A FEB aproveitou o período e se preparou para uma nova e decisiva investida contra o Monte Castello, onde tanto sangue brasileiro havia sido derramado. Agora era uma questão de honra tomar aquele monte.
Solenidade O aniversário de 75 anos da tomada do Monte Castello será lembrado hoje, às 8h, com desfile da tropa durante uma solenidade com a presença de autoridades militares no quartel do 1º Grupamento de Engenharia, em João Pessoa. O tenente Bráulio participará. Por isso, haverá o toque de corneta que indica a presença de um ex-combatente.
Os soldados brasileiros tiveram que esperar mais de dois meses para, enfim, conquistar o Monte Castello devido ao forte inverno. A guerra entrava no seu último ano, mas ainda derramaria muito sangue.
O novo encontro entre a FEB e o Castello foi marcado para 21 de fevereiro. Agora, a ação seria em série, com várias elevações como alvos, incluindo o Monte Castello. O Belvedere era um dos objetivos da recém-chegada e especializada no tipo de luta que ocorria nas elevações italianas, a 10ª Divisão de Montanha americana.
Os pracinhas atacaram ao amanhecer do dia 21 de fevereiro. Enquanto isso, a 10ª de Montanha, que já havia capturado o Belvedere no dia anterior, eliminando uma das posições de tiro contra os brasileiros, subia o Monte della Torraccia.
O segundo-tenente Bráulio participou do ataque vitorioso comandando uma bateria de morteiros, que garantiu o apoio de fogo direto às tropas brasileiras, ajudando a eliminar vários pontos inimigos.
O Regimento Sampaio avançou à frente. Os alemães resistiam ferozmente. Mais de 20 ninhos de metralhadoras foram identificados na zona atacada pela FEB. A batalha seguiu durante todo o dia.
A confirmação da vitória por volta das 17h50 pelo horário italiano. O tenente-coronel Emílio Rodrigues Franklin comandou um pelotão que atingiu o cume. De posse da elevação, os pracinhas ainda não podiam festejar, pois era hora de se preparar para possíveis contra-ataques. A artilharia continuou durante toda a noite. A vitória veio ao preço de 103 baixas.
O Monte Castello era dos brasileiros, mais uma página de glória da FEB havia sido escrita.
Números da FEB > 25.334 soldados foram enviados para lutar na Itália; > 2.722 militares tiveram ferimentos; > 478 pracinhas morreram nos combates; > 35 brasileiros foram feitos prisioneiros de guerra; > 16 soldados brasileiros foram considerados desaparecidos, sendo que 14 corpos foram achados e não identificados; > 6 paraibanos morreram em combate na Itália, sendo que mais de 300 integraram as ações da FEB.
* Do Jornal CORREIO