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Mortes versus emboscadas

O Brasil vem, ao longo dos últimos anos, ampliando e endurecendo sua legislação de trânsito. Sem dúvida, temos hoje um dos códigos mais rigorosos do mundo. A despeito disso, o País segue assistindo – ano após ano – a um verdadeiro derramamento de sangue em suas estradas e rodovias.

Na Paraíba, por exemplo, as mortes por acidentes de trânsito aumentaram 126% no intervalo de doze anos. Os números impressionam: em 2001, sepultamos 439 vítimas fatais; em 2012, mais 994 pessoas encorparam as estatísticas de mortes (veja gráfico abaixo).

E o extermínio no trânsito segue em ascensão. De janeiro a junho de 2015, a Paraíba registrou mais de 500 mortes de trânsito. Até setembro, o Estado contabilizava 700 vítimas fatais.

No País, os dados são ainda mais assustadores: levantamento do seguro obrigatório DPVAT mostra que 50 mil pessoas morrem por ano nas estradas brasileiras – são 136 mortes por dia ou cinco por hora.

As mortes são sinais trágicos de que estamos derrapando na tentativa de civilizar o trânsito brasileiro. A pergunta que se impõe é: será que estamos indo na direção errada?

Obviamente, nenhum cidadão bem intencionado pode se colocar contra leis concebidas para impor limites, coibir excessos, cobrar responsabilidades no trânsito.

Não podemos ignorar, porém, um fato inquietante: o endurecimento da legislação não coincide com o aumento da segurança no trânsito. Aliás, muito pelo contrário. Por quê?

Provavelmente porque o foco da legislação de trânsito brasileira não é educar. É arrecadar. E como arrecada!

As multas de trânsito rendem bilhões de reais aos cofres públicos anualmente. São Paulo (SP), por exemplo, obteve em 2015 quase R$ 700 milhões.

Na Paraíba, o “faturamento” da indústria da multa também vem aumentando em escala vertiginosa. A arrecadação do Detran cresceu 314% entre 2004 e 2014 – e parte desse incremento foi fomentado pelo pagamento de infrações de trânsito.

Não sem razão, o motorista brasileiro se sente emboscado no trânsito.

Ou não é realmente uma emboscada a mudança brusca de limites de velocidade nas rodovias, sem causa aparente – e precariamente sinalizada?

Não raro, a redução é imposta justamente em longas retas de vias duplicadas, favoráveis à aceleração. Trata-se, claro, de um truque. Pois é exatamente neste trecho que você será emboscado.

Nas margens, veículos policiais com faróis apagados – e até mesmo camuflados na vegetação – encobrem atividades de equipes de fiscalização. Escondidos e à espreita – como convém aos emboscadores – acionam seus radares móveis para flagrar os mais incautos.

Se o objetivo fosse mesmo segurança, estas equipes teriam comportamento ostensivo. E estariam visíveis, orientando os motoristas sobre os riscos. Por que não orientar às claras?

Desafortunadamente – e as estatísticas provam isso – a estratégia da emboscada não leva à segurança. Só recheia de forma mais vertiginosa os cofres dos arrecadadores. Desta forma, aceleramos as engrenagens de um trânsito fatal, que mata seus usuários e, também, a fome dos cofres públicos.

Morte no trânsito

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