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O Brasil me enganou

Em setembro, a Confederação Nacional da Indústria editou informe A Indústria em Números, onde – entre outros dados – exibe gráfico com o percentual da participação do setor no Produto Interno Bruto do País ao longo de quase sete décadas – mais precisamente entre 1947 e 2013.

A performance da indústria não me surpreendeu. Até porque – me perdoem a imodéstia – conheço com intimidade forjada na convivência (sobrevivência e quase insolvência ) a aritmética industrial.

Os dados reunidos pela CNI, porém, me reservavam uma surpresa: O PIB industrial, entre 1947 e 2013, tem relação umbilical com a história da minha vida.

As linhas gráficas poderiam estar impressas na palma da minha mão. E sinalizam com clareza os rumos – erros e acertos – que minha vida tomou.

Nasci um ano antes do período registrado no gráfico. Assim como em 46, a participação da indústria no PIB brasileiro em 47 – e nos anos seguintes até 1953 – era modesta: em torno de 25% das riquezas globais produzidas no País.

Nesse período, vivia a primeira infância. Se fosse um pouco mais experiente, certamente a indústria não exerceria nenhum poder de atração sobre o jovem Roberto.

Mas o quadro se transformaria nos anos seguintes. Entre 1954 e 1965, a indústria nacional começou a reagir.

E essa reação pegou Roberto – de menino, aos 8 anos, até o início da fase adulta, aos 19 – no momento em que enfrentava o duro conflito da definição vocacional.

Uma indústria pujante, que ultrapassava a casa dos 35 por cento do PIB nacional, fazia a minha alma empreendedora cintilar.

E foi ofuscado por esta cintilância que disse sim para a indústria. Não tinha, naquela época, motivos para duvidar de minha opção. Ser industrial era uma aposta extremamente promissora.

E os estímulos vinham de toda parte.

Nos anos seguintes, entre 1966 e 1969, ao tempo em que cursava economia em Pernambuco, também integrava escritório junto com meu então professor Cristovam Buarque, hoje senador da República, e vivia em meio a elaboração de projetos de viabilidade para a Sudene, que atravessava sua fase áurea.

Mais adiante, entre 1970 e 74, já instalado na Paraíba, iniciava minhas atividades industriais embalado pelos ventos que sopravam fortes e constantes sobre as linhas de produção.

E minha relação com a indústria ia mesmo de vento em popa. Entre 1975 e 1984 a indústria estava mais forte do que nunca. Respondia por metade do PIB do País.

Nada, naquele horizonte, indicava que uma turbulência sem precedentes – nem data para acabar – estava em formação.

Mas estava.

A partir de 84, a participação da indústria sai do patamar de 50 por cento para míseros 25 por cento – onde patina até hoje em curva decrescente.

Deus, minha equipe e alguma capacidade de previsibilidade fizeram com que não mais priorizasse minhas atividades na indústria.

Muitos, porém, não tiveram a mesma sorte.

Alguns dos que continuaram, não resistiram.

Sucessivos planos econômicos equivocados, congelamentos de preços, bloqueios de contas bancárias e desvalorizações cambiais abalaram a saúde da indústria ao longo desse período.

Aliado as desventuras históricas, o onipresente Custo Brasil – construído por juros altos, inflação, carga sufocante de impostos e a legislação trabalhista irreal – praticamente zera a capacidade de competir com os mercados globalizados.

Juntos, os abalos cíclicos e os obstáculos constantes quase dizimaram a indústria nacional.

E por muito pouco não levaram junto meus projetos de vida.

Salvo por um triz, sobrevivente de um tsunami econômico que expurga os que abraçam o setor industrial, olho de uma ponta a outra a linha gráfica com uma convicção:

O Brasil, realmente, me enganou.

A mim e a milhares de empreendedores brasileiros.

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