Não é somente o México que pode perder o jogo de hoje. O Brasil também pode. Isso não me deixa tenso, a nenhum momento. O que me torna apreensivo neste não sei bem se admirável século é quando alguns decretam o fim dos livros como objetos destacados numa estante, os livros-objetos, que têm vidas próprias, páginas que podem ser anotadas com canetas-objetos. Podem ser permutados com o fetiche intelectual da aventura de saber. Há quem defenda o e-book por ser pequeno, por “não pesar na mochila”. Uma amiga disse que somente isso já compensa o “fim do livro”.
E um professor não defendeu, na Internet, a idéia de que os romancistas devem diminuir o tamanho das suas histórias, a quantidade de seus capítulos, para que os jovens possam “voltar a ler”? E não estão lendo? Então, para que servem professores e pais de famílias? Para agradarem à vontade dos garotos que acham a posse do Playstation4 o máximo da vida? Aquele professor deve ir ao orgasmo com um conto em 140 caracteres (o tamanho máximo de um “tweet”). Acha que o iPad é a conquista maior da civilização. Se nossa cultura dependesse disso, um Tolstói teria sido proibido de viver para escrever um “Guerra e paz” e Euclides da Cunha não teria feito “Os sertões” nem o “Romance d’A Pedra do Reino” teria saído da cabeça de Ariano Suassuna.
Recordo “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, mostrando pessoas a manter um pequeno foco de resistência na tentativa de preservar os livros e, por conseqüência, o conhecimento. Bradbury foca a sociedade de consumo e o papel da indústria do entretenimento, principalmente da imagem, nesse processo. Percebemos traços da sociedade narrada em “Fahrenheit 451”, lançado em 1953, na sociedade de 2014. Agora pessoas passam horas conectadas à Internet, recebendo mais informação do que são capazes de processar. As “redes sociais” mentem em nome da “interatividade”. Os que delas dependem, na verdade ficam mais distantes, menos afeitos ao diálogo, em computadores-bunkers onde não são “atingidos” por gente ao vivo.
Bradbury refletiu que as pessoas são levadas a fazer o que o sistema impõe, com elas tendo a impressão de que agem por vontade própria. Queimam nossos livros com um fogo que não conseguem ver.