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O inferno s?o os outros?…

Não dá pra concordar, mas, às vezes, entendemos o que Sartre quis dizer ao bradar para o mundo que “O inferno são os outros”. Há quem ache que aqueles que infernizam o mundo são involuídos, coitadinhos, vítimas da falta de educação, o que é uma verdade. Ou talvez, uma meia verdade, já que existem tantos que se educam pela sensibilidade, pela observação, pelo bom senso que lhes enriquece os sentimentos. Conhecemos pessoas que não se instruíram, são praticamente analfabetas, mas que têm uma educação superior à de muitos doutores… Aliás, educação de sentimentos não depende nem de leitura, nem de cultura, muito menos de fartura. Está na alma, na consciência.

Ocorre que a célebre frase de Sartre, vez por outra, nos vem à mente. Por exemplo, quando estamos numa praia tranquila e chega um carro passando por cima das dunas, da vegetação, estaciona em frente ao mare seu dono abre a tampa da mala para sacudir no ar um “forró pornô” com o volume na maior altura.

Certa manhã, também nos lembramos do Jean Paul. Após passarmos por uma trilha bordada de flores silvestres, que nos leva ao mar, tomávamos um vigoroso banho matinal. De repente, pela mesma trilha, vimos chegar uma turma carregada de apetrechos, isopor, churrasqueira, e à beira-mar se instalaram. Já estávamos de saída. Ao voltar, observamos pelo caminho, junto às flores que nos saudaram logo cedo, latas de cerveja vazias, jogadas pelos tais, os “outros”.

Nesses atalhos das falésias, uma das coisas mais encantadoras é ouvir o canto dos pássaros que vem de dentro dos bosques. Acolchoadas pelo marulho, pelo rumor da brisa e farfalhar dos coqueiros, as delicadas melodias soam tal qual sinfonias de nirvana e placidez. A beleza desses cantos se enriquece pela liberdade e felicidade constatadas nos seres desse mágico habitat, tão harmonioso.

Já lá em cima, avistamos a varanda de uma casa que nos fez mais uma vez pensar no que disse o velho Sartre. No alto da parede, três gaiolas penduradas, com miúdos passarinhos prisioneiros do egoísmo. O pior é que, à sua frente, eles tinham a ampla visão do belo cenário frondoso e verdejante – uma crueldade tão enorme que doía. Nascidos pra voar, por aquele céu e mar, terminaram encarcerados pelos estúpidos algozes que talvez sejam os “outros” a que Sartre aludia…

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