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O que é a arquitetura hostil?

Professor do Unipê explica o conceito que justifica desenhos urbanos considerados violentos

Não é de hoje que há nas cidades ações relacionadas ao desenho urbano que visam prevenir ou impedir a criminalidade e ajudar a manter a ordem. Exemplos fortes foram as pedras instaladas em 2021 sob os viadutos Dom Luciano Mendes de Almeida e Antônio de Paiva Monteiro, na capital de São Paulo, e cactos plantados embaixo dos viadutos em Salvador, na Bahia, em 2015. Essas estratégias projetuais são conhecidas como arquitetura hostil.

Por trás desse conceito está a ideia de desencorajar o uso do ambiente construído para fins que não foram destinados. “As estratégias se relacionam, em sua maioria, com o mobiliário urbano e variam em escala e tipo, sendo geralmente empregados para evitar a prática de skate, parkour, micção pública, abrigo para pessoas em situação de rua, entre outros comportamentos ditos ‘antissociais’”, explica o Prof. Me. Rui Rocha Jr., de Arquitetura e Urbanismo do Unipê.

Segundo o arquiteto e urbanista, trata-se de uma espécie de urbanismo higienista, cujo intuito é realmente afastar as ocupações “indesejáveis” nos grandes centros urbanos, praças, viadutos, marquises e calçadas. A arquitetura hostil é conhecida por outros termos, como arquitetura defensiva, design desagradável, excludente ou urbano defensivo, e até “arquitetura antimendigo”. As estratégias são as mesmas: tentar afastar dos espaços urbanos os conflitos sociais existentes. E para Rui, os termos refletem o que literalmente são e o seu propósito ao conceber os espaços.

“Entretanto, acredito que esse é um caminho equivocado para lidar com os conflitos sociais urbanos, que não estão presentes apenas nas cidades brasileiras, mas que encontramos em todo o mundo”, garante o professor. Ele conta que a arquitetura hostil funciona mais ao revés: trata-se de uma violência à democracia do espaço urbano, cujas táticas não resolvem o problema da segurança, mas camuflam a pobreza.

Mas, afinal, o que pode trazer segurança às cidades? Segundo Rui, a segurança nos espaços públicos vem com a vitalidade urbana. “Quando a presença humana passa a gerar conflitos sociais graves nas cidades, o problema muitas vezes não está relacionado ao espaço construído, mas às políticas sociais que são muito mais profundas e complexas. Note que os lugares de maior violência são aqueles que são ermos, desertos, sem ‘os olhos da rua’, como já sinalizava Jane Jacobs na década de 1960”, conclui.

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