Deixei passar alguns dias da morte de Ariano Suassuna para falar dele, amigo que ao longo dos anos tivemos alguns dos encontros proporcionados pelas artes, seja em eventos culturais ou nas aulas-espetáculos que proferia, sempre expressivas e atraentes. Nesses dias depois de seu passamento, em silêncio, como convém, relembrei passagens que evoluíram na minha retina, depois dos primeiros momentos de nossos contatos há quase duas décadas, até não suportar a ausência causada por essa perda. Peguei meu caderno e rabisquei este texto. Ariano faz parte do patrimônio de saudades e o tenho nas minhas agradáveis recordações e orações.
A admiração surgiu quando uma professora de Português falou dele em sala de aula, contando causos, e indicando a leitura de seus livros, começando a paixão pelo seu trabalho, demorando mais de uma década para vê-lo de perto, abraçá-lo e admirá- lo, gestos repetidos em momentos esporádicos de nosso convívio durante três décadas. Concluindo: a admiração e amizade se estabelecem apenas pela identidade de amor à nossa gente, a cultura do Nordeste e não na constância dos reencontros.
Quando A União publicou a “Coleção Nomes do Século” fizeram-me merecedor para escrever o volume sobre sua trajetória de vida, o qual foi distribuído durante sua posse na Academia Paraibana de Letras, em novembro de 2000. Naquela noite, como
lhe era peculiar, agradeceu meu modesto trabalho e aproveitei para dizer que meu bisavô João Mendes havia sido juiz partidor nomeado pelo seu pai, João Suassuna, em 1924 e que nos episódios de 1930 ficou ao lado dos perrepistas, em Serraria. Os laços de amizade de nossa cidade com sua família estenderam-se a Julio Lira, amigo e auxiliar do seu governo e, nos anos quarenta, seu irmão Lucas também foi juiz em nossa cidade. Tudo conduzia a admiração por este mestre das letras, de excessivo amor a terra.
Não bastassem esses fatos, as lições de amor ao povo de nossa terra e sua gente com todos os apetrechos culturais, motivaram cada vez mais escutar sua voz, meditar suas palavras, imitar seus gestos.
A literatura e a dramaturgia brasileira perderam sua voz mais genuína surgida no Nordeste, mas ficaram seu legado e sua persistência. Cada cidade paraibana deveria ter uma rua, um conjunto residencial, um memorial, uma estátua para Ariano. Para mim, ele tem mais valor do que certas pessoas que se tornaram nome de cidades.
Ariano ensinou a encontrar os caminhos espirituais da arte, que começa na primavera da vida. Ele continuará sendo uma alta estrela a conduzir o rebanho pelas caatingas do Nordeste, buscando a beleza suprema da estética.
Obrigado, Ariano!