Parece-me ter sido ontem que estava num grupo escolar, de calças curtas, gostando de aprender o mundo e a minha língua, como ontem estava de calção tomando banho no jardim e, aos 8 anos, olhando o céu de Tambaú e nele pressentindo a morte de Getúlio Vargas, e como ontem estava descobrindo, ao mesmo tempo, Júlio Ribeiro, Jules Verne e Augusto dos Anjos, na Biblioteca Pública do Estado, e ainda como ontem sentia os primeiros quereres de amor e sexo enquanto o rádio tocava Agostinho dos Santos e Ray Charles.
Mas, como ontem sempre foi hoje, na primeira madrugada do feriadão – depois da festa de aniversário da minha filha, Alessandra -, as lembranças foram de Torquato Neto, ao som de “Pra dizer adeus”, parceria dele com Edu Lobo, começando assim: “Adeus, vou pra não voltar, onde quer que eu vá sei que vou sozinho”… Essa bela e triste canção é de 1967, gravada então por Maria Bethânia, cinco anos antes do suicídio de Torquato. Ele se matou em 11 de novembro de 1972, um dia depois de seu aniversário, quando completou 28 anos, no Rio de Janeiro. Depois de voltar de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás.
Aos que ainda escutam suas músicas, mas não acompanharam sua história: Torquato foi morar com sua mulher em Londres, logo depois do AI-5. Quando voltou, no início dos anos 1970, começou a se isolar, sentindo-se insultado tanto pelos adeptos do governo militar como pela patrulha ideológica de esquerda, rompendo várias amizades e passando por uma série de internações para tratar do alcoolismo.
Ao escutar várias vezes “Pra dizer adeus”, como quem leva-me sou eu gastei o resto da madrugada em reflexões. Lembrei do título de um filme de Frank Capra, “Do mundo nada se leva”, e arrematei a mim mesmo buscando Millôr Fernandes: “Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus”. Reforço: “Pessoas, e não apenas coisas”.
Balzac não disse que muitos suicidas detiveram-se no limiar da morte “ao pensar no café onde vão todas as noites jogar a sua partida de dominó”?
Não é fácil dizer adeus.