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Pais relatam histórias de vida dedicada a cuidar dos filhos

Ser pai não é apenas ter um nome na certidão de nascimento da criança ou dar um beijo ao chegar do trabalho. Também não é só comprar alimento, roupa, medicamento, brinquedos, nem tampouco dar uma farta mesada e sequer ter conhecimento do que é feito dela. Ser pai vai muito além de oferecer o que é básico e obrigatório. É ter coragem de abrir mão de projetos pessoais, deixar de lado o próprio bem estar para garantir aos pequenos, além do amor incondicional, atenção, companhia, conforto, segurança.

Pai de verdade é aquele que participa de cada fase, acompanha as pequenas conquistas, a primeira palavra, o primeiro passo. É o que não desiste diante das dificuldades e encontra solução para qualquer problema mesmo que, para isso, seja preciso se desdobrar, buscar alternativas, driblar os obstáculos e fazer quase o impossível.

Ser pai é participar, viver cada momento, aprender de tudo um pouco – trocar fralda, dar banho, alimentar, reconhecer o que significa um choro, somar noites maldormidas, refazer as contas dezenas de vezes para o orçamento dar certo – e, mesmo assim, sentir-se feliz ao ver um sorriso de satisfação ou um traço seu no rosto de um pequeno ser.

Hoje o dia é todo deles, dos pais, e a data será lembrada por muitos filhos. Alguns vão abraçar, presentear, outros vão apenas lembrar e sentir saudade. É o momento de homenagear, agradecer e também a oportunidade de contar histórias inspiradoras de pais dedicados. Através de atitudes do dia a dia, eles mostram que, além do amor paterno, os pais podem oferecer cuidados especiais e fazer a diferença na vida dos filhos.

Uma história inspiradora

Aos 43 anos, Severino da Silva Rodrigues é um exemplo de pai que, apesar da falta de recursos, sempre procurou fazer o melhor para os seis filhos que cria sozinho. Diante do desemprego e do drama de ser o único responsável pela família após separar-se da esposa, ele encarou a rua recolhendo material reciclável. O retorbo é pequeno, mas o pouco que consegue compra alimento.

Morador da Comunidade do ‘S’, no Roger, em João Pessoa, ele representa bem os chefes de famílias que convivem com a escassez e busca alternativas para sustentar os pequenos. As crianças têm entre 9 e 15 anos. O mais velho, que ele ‘adotou’, já saiu de casa, mas veio a neta, que tem 11 meses, e ocupou a ‘vaga’ do tio. Para dar conta, além do trabalho como catador, Severino tem o reforço do Bolsa Família de três filhos, o que rende uns R$ 300 mensais que, somados ao da catação, não chegam a um salário mínimo. “Mesmo assim, aqui ninguém passa fome”, garantiu. “É um orgulho ter um pai como ele”, disse a filha Mikaelly, de 15 anos.

A casa tem três cômodos e foi construída com a ajuda da família, mas ainda falta o reboco, o piso. O quarto não tem espaço para todos e há camas pela sala. A expectativa era conseguir um emprego para dar andamento à obra. Veio o teste, mas o sonho de ocupar uma vaga de porteiro foi desfeito. “Perdi a oportunidade porque não tenho estudo. Então, sempre incentivo meus filhos a estudarem”, disse.

Cuidando dos filhos em tempo integral

A chegada de Mariana, segunda herdeira da família do construtor Anderson Bione de Araújo, de 39 anos, foi uma alegria. Porém, ele jamais imaginou que a filha nasceria com uma síndrome genética rara, a CDKL5, que provoca convulsões frequentes e compromete o desenvolvimento do cérebro.

Mariana, que completou quatro anos de vida, não interage e não tem qualquer reação a estímulos, mas a condição não desanimou a família. Pelo contrário, uniu ainda mais.

O pai contou que a menina nasceu bem, de parto normal. Ao completar dois meses e meio, começaram as convulsões. Até então, a família não sabia o que era. Os neurologistas que procuraram diziam que se tratava epilepsia leve. Porém, o quadro se agravou e, aos 9 meses, veio o diagnóstico inesperado.

“Ela não anda, não fala, não tem desenvolvimento motor. Quando eu e minha esposa descobrimos a gravidade, sabíamos que ela não ia responder a nada. Minha esposa é bancária, concursada e eu tinha acabado de iniciar meu negócio no ramo da construção. Não tivemos coragem de deixá-la com ninguém e decidimos que eu abriria mão do trabalho para cuidar só dos meus filhos. Não foi fácil mudar tudo de repente, mas todas as coisas que acontecem vêm de Deus”, disse Anderson, que também é pai de Arthur, 10 anos.

“Apesar de tudo, me sinto feliz. Durante a semana, recebi um poema do dia dos pais, do meu filho. Ele, com dez anos, me dá força, muito amor, reconhecimento. É um reflexo muito bonito dentro de casa, inclusive com a irmã, um carinho muito grande. Ele vê o exemplo dos pais”, observou.

É Anderson o responsável pelo cuidado diário com alimentação, banho, troca de roupa, as idas à fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional. A avó de Mariana dá uma força duas vezes por semana. Ele se desdobra para dar conta, mas garante que o esforço vale a pena. “Me sinto um pai realizado. Aqui em casa, nós somos muito juntos. Para minha esposa progredir no trabalho, tinha que ter um apoio como esse. Ela tem uma irmã especial e, quando Mariana chegou, foi muito forte”, lembrou.

“No Dia dos Pais, eu gostaria de ganhar o que recebo todo dia: amor, carinho, companheirismo e reconhecimento. Tudo que faço é por amor. Só em ver o reconhecimento de Arthur, já que Mariana não demonstra reação, me sinto realizado. É só amor”, disse Anderson Bione.

Uma missão mais que especial

Joselito Alves dos Santos já era pai de João Gabriel, quando Maria Gabriela chegou. Gaby foi a primeira criança da cidade de Esperança, no Agreste da Paraíba, diagnosticada com microcefalia. E poderia ser “Esperança” o sobrenome desse pai. Ele e a família foram os primeiros a irem aos tribunais em busca de justiça.

Gaby nasceu antes do tempo, com 28 semanas de gestação, e foi diagnosticada com a síndrome congênita do vírus zika, mas para a família, o acompanhamento pré-natal não foi bem feito e poderia ter preparado todos para uma jornada até então inesperada.

Foram muitas novidades “nebulosas” para os pais que sequer estavam contando com a chegada de um novo bebê – Maria Carolina, a esposa, amamentava e tomava anticoncepcional quando suspeitou de uma virose, que era uma gravidez.

Além de João Gabriel e Maria Gabriela, ele também é pai do João Miguel. Para este papai, que mergulhou junto com a esposa Carol nesse novo mundo de desafios, criar uma criança com microcefalia é pausar os olhos para enxergar as sutilezas e as necessidades de alguém que só precisa de amor e qualidade de vida.

Joselito não é só o pai da Maria Gabriela. Ele é alguém que sabe qual é o papel do pai na vida da família. Para ele, os pais devem se envolver na vida e nos cuidados com os filhos tanto quanto às mães. “Esta patologia (microcefalia) não faz sermos menos ou mais, na verdade faz a diferença na falta de dinheiro não aplicado à saúde pública, nos centros urbanos, periferias e zonas rurais. Aprendi que, como homem, devo ser chamado à responsabilidade, pois não é apenas da mulher como ouço e leio às vezes. O homem também deve ser ouvido e colocado em evidência no cuidado dos filhos”, acredita.

Este papai entendeu que a sua jornada é nobre e nesse dia dos Pais, lembra que sempre estará em busca de uma vida digna para seus filhos, principalmente para Gaby.

“Ser pai é ter vencido essa tribulação com amor e companheirismo e sem dúvidas ter reunidos forças e ir a lugares que jamais imaginei para lutar por visibilidade à causa da microcefalia. Acredito que uma família como base é uma forma de construir crianças felizes para o mundo. Gaby trouxe essa essência de amor e de cuidados entre nós”, afirma.

Pai na ‘função’ de mãe

Nas duas histórias dos pais que moram em João Pessoa, eles assumiram a função da maternidade: Severino, de forma integral, e Anderson durante todo o dia, enquanto a esposa trabalha. Eles são pais e mães, o que acaba chamando a atenção em um universo em que somente as mães acabam tendo essa ‘obrigação’.

Por outro lado, a psicóloga Danielle Azevedo, especialista em terapia de casal e família, destacou que muitas mães também atuam como mãe e pai e, algumas, se denominam ‘pães’, fazendo a junção dos dois papéis. “É muito enraizado na nossa sociedade essa coisa de que a mãe tem um pouco mais de responsabilidade, que tem que assumir essa postura por não ser provedora. E a gente vai quebrando esse estereótipo com o passar dos anos porque elas passaram a ser mais independentes, trabalham e não têm mais essa função apenas voltada para o lar”, observou.

“Com a mudança” – analisou Danielle Azevedo – “essa ‘coisa’ do homem provedor também vai se desfazendo, já que há igualdade de papéis, de comportamentos, interesses, funções que podem ser atribuídas dentro do ambiente para que haja melhor qualidade de vida”.

“Se todo mundo tivesse essa consciência, seria maravilhoso. Todo mundo merece ser cuidado e amado de forma genuína e de maneira compatível à imagem paternal e maternal, independente de gênero. Se muitas pessoas voltarem no tempo, irão lembrar que o pai foi marcante por algum motivo e a mãe por outro. É nítida a diferença que algumas pessoas trazem para o consultório em relação a tratamento, postura, carinho, expressão verbal de afeto”, disse.

Danielle Azevedo lembra que a educação não é apenas voltada para o que se deve aprender em nível cognitivo, mas em nível emocional também. “Ter bom caráter e boas relações, ser afetivo, saber compreender, estar no lugar do outro, ainterpretar como é ser bem acolhido, bem tratado. Tudo isso está nesse universo que se chama educação”, analisou a psicóloga.

Lucilene Meireles, jornal CORREIO

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