Moeda: Clima: Marés:

Por que jovens têm começado a fumar na adolescência?

Uso de nicotina por vapes é tão potencialmente nocivo quanto o de cigarros tradicionais

Problema mundial de saúde, o consumo de tabaco por adolescentes e jovens tem ficado maior ao longo dos últimos anos, em especial devido ao uso de vapes. O Ministério da Saúde indica que a droga ocupou o segundo lugar dentre as mais experimentadas no Brasil na última década, e quem inicia tem em média aos 16 anos de idade.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019), realizada em conjunto com o IBGE e o apoio do Ministério da Educação, mostram um aumento na proporção total de fumantes entre 13 e 17 anos, de 6,6% em 2015 para 6,8% em 2019. Isso por conta do aumento de fumantes entre meninas, que foi de 6,0% para 6,5% no mesmo período.

Mas o que faz tantos jovens iniciarem o uso de cigarros, sejam os tradicionais, sejam os vapes? Para o médico pneumologista Rodolfo Bacelar, professor do curso de Medicina do Unipê, não há uma razão só. Durante essa fase da vida, busca-se conhecimento e aprendizagem por meio da experimentação, segundo Rodolfo. Isso, aliado ao poder aditivo da nicotina, de ser legalizada e do fácil acesso à droga, justifica boa parte dos casos de início do uso.

“Após a experimentação, o ‘poder do vício’ mantém o hábito tabágico. Também existe a questão do comportamento do grupo, que é potencializado neste período – se um jovem do grupo de amigos começa a fumar, é possível que todo grupo passe pela experimentação e alguns deste permaneçam usuários. O mesmo ocorre em famílias que fumam: os adolescentes são iniciados ao verem os pais fumarem”, elenca Rodolfo.

Outro aspecto é a influência de ídolos e das mídias e propagandas (tradicionais ou mídias sociais). “No caso do tabagismo tradicional, leis regulatórias reduziram substancialmente este fator. Porém, vemos o ressurgimento dele no contexto dos cigarros eletrônicos, atrelado em muito a um discurso de ‘modernidade’ e ‘segurança’ passado pelas redes sociais”, diz Rodolfo, salientando que vapes carregam malefícios iguais ao tabaco tradicional.

Vaporizadores não são mais saudáveis

Existem, sim, diferenças entre cigarros tradicionais e eletrônicos. Contudo, mesmo que a concentração de substâncias nocivas seja inferior nos vaporizadores em relação ao tradicional, a maneira como se consome, a frequência desse uso e a quantidade usada deixam os dois similares.

“O ‘carro-chefe’ é a nicotina, a responsável pelo vício. Além disso, ela tem efeitos adversos cardiovasculares e no desenvolvimento do sistema nervoso. Outras substâncias como propilenoglicol, formaldeído e acetaldeído são cancerígenas. Até metais pesados, como chumbo, já foram documentados no cigarro eletrônico. Então, os consumidores estão expostos ao risco de ter doenças cardiovasculares como infarto e arritmias, pulmonares como o enfisema e outras inflamações, piora de doenças respiratórias prévias como a asma, além do câncer”, cita.

Ainda, o cigarro eletrônico pode provocar: dificuldades de memória e irritabilidade; diminuição das defesas pulmonares facilitando infecções; além da própria doença pulmonar causada por substâncias presentes no dispositivo, a EVALI, onde uma importante inflamação impede a passagem do oxigênio dos pulmões para o sangue, levando à necessidade de suporte ventilatório.

“Em surto recente, jovens precisaram ir para UTI e utilizar ventiladores mecânicos, existindo até aqueles que precisaram de transplante de pulmão. Além disso, ser mais ‘socialmente aceito’ e a presença de essências, com seus cheiros, sabores e cores, faz com que as pessoas consumam ainda mais os vapes”, justifica Rodolfo.

O especialista reitera não haver cigarros seguros. Pelo contrário: para Rodolfo, o vape é hoje a principal porta de entrada para vício em nicotina, fazendo com que o indivíduo, posteriormente, siga com o cigarro tradicional. Nos Estados Unidos, o governo apontou que até um terço de jovens que usam vaporizadores passarão a usar cigarros tradicionais em até 6 meses.

“As grandes indústrias do tabaco são as também produtoras do cigarro eletrônico. É uma indústria baseada na aquisição de novos consumidores, viciados em nicotina, que tem capacidade de vício semelhante à cocaína. Pelo apelo ao público jovem em suas propagandas, pela ‘inovação’, tecnologia, cores e sabores, o cigarro eletrônico hoje é a porta de entrada na nicotina. Novamente, não existe cigarro seguro”, conclui.

Quer ser um (a) pneumologista?

Faça Medicina! O curso do Unipê forma profissionais pautado em princípios éticos, qualificados com base no rigor científico e capazes de intervir em situações de saúde-doença que fazem parte do perfil epidemiológico nacional. Saiba mais sobre a graduação aqui!

publicidade
© Copyright 2026. Portal Correio. Todos os direitos reservados.